Confissões
Estou com saudades de escrever, embora não saiba o quê. Sinto minha alma gritar, tentar se livrar de todos os pesares, sentir-se mais leve, mas nada brota dentro de mim. Minha angústia está matando o meu possível, outrora, bem-sucedido talento. Minha vida já foi cheia de glórias, de sorrisos, de olhares atentos. Hoje eu não sei se nada disso alguma vez foi real e verdadeiro. Amigos? Eu nunca aceitei a idéia de que eram “poucos e bons”, sempre achei que estava rodeada deles. Na verdade, achava que qualquer um que me desse o mínimo de atenção e afeto seria um amigo. Hoje eu vejo o sincero sentido da palavra “amizade”. Amigos, estes foram feitos para serem poucos. É um privilegio muito bom para ser desfrutado assim, por qualquer um. Às vezes me pego parado, pesando nas coisas que um dia eu fiz, em tudo o que vivenciei. Eu costumava dizer que só me arrependo das coisas que não fiz. Na verdade, eu sentia medo de não realizar tudo aquilo que gostaria, e mesmo que não tivesse feito, eu iria arranjar algo para me frustrar segundos depois. Me arrependo sim, de muitas coisas na verdade. Se pudesse voltar ao passado, consertar algumas coisinhas aqui, outras acolá... Mas a vida é feita de lembranças, e o que seriam das minhas más lembranças, de fato, o que eu teria aprendido? Fiz muitas coisas... Beijei muitas bocas à procura de uma só, em que eu pudesse me encaixar perfeitamente, como num sonho mágico. Nunca encontrei essa tal “cara-metade”, começo a imaginar que ela seja um mito, uma invenção comercial dos empresários e da mídia para manipular-nos no consumo exagerado de perfumes, cartões, cartas de amor. Ouvi muitas músicas bonitas e muitas boas. Chorei dores de cotovelo, amei, sangrei. Tento pensar, como um comodismo mesmo, que não me arrependeria de nada. No fundo no fundo me arrependo de ter me entregado demais a alguns sentimentos. Rodei o mundo, algumas vezes até parado. Falei, falei, falei até demais e também ouvi, confesso que bem menos. Alguns podem até chamar-me de egoísta, mas acho que não sou. De fato, eu penso em mim, mas nos momentos em que alguém jamais pensaria. Fui uma boa companhia, creio eu, pelo menos nunca ousaram me dizer o contrário. Vivi de todas as experiências, as boas e algumas ruins. Vi a morte! Encontrei com ela poucas vezes, mas consegui despistá-la. De todas as minhas vivências, meus erros e acertos, meus “moles”, minhas mentiras descaradas, minhas loucuras de adolescência, meus amores, meus devaneios, meus ouvidos, minha ignorância, minha sabedoria; de todos eles, o que eu me recordo com maior apreço e carinho são os erros da minha infância. São os erros sem culpa, sem repressão, ainda que eu não me lembre de nenhuma dessas experiências. Minha infância não foi de tamanhas brincadeiras, truques e magias. Ainda sinto que não fui tão criança quanto gostaria. As pessoas hoje em dia nascem mais adultas do que antes, vivem a infância muito rápido, ou em muitos casos não a vivem. Eu não fui tão travesso, de saltar de árvores e “apanhar” do pai. A minha saudade é do desprendimento que eu nem me lembro que sentia, mas que nunca mais fez parte ma minha vida. Talvez seja por esse motivo que eu escapo nas linhas e páginas de um papel, na minha escrita fúnebre e egocêntrica. Talvez seja também por esse motivo que eu me bloqueei, não consigo mais transpassar o que sinto para o meu refúgio, o mundo que eu criei para mim. Acho que não sinto mais como antigamente. Acho que antigamente não sentia. Não sei, acho que não sinto. Preciso de um lápis, uma borracha e um papel para a minha vida. Preciso escrever sobre a minha vida. Sinceramente, preciso escrever a minha própria vida. Preciso da certeza das coisas, dos sentimentos, dos sentidos, do amanhã para ser feliz. Mas eu nunca terei. Enquanto isso, eu tento ainda me refugiar no papel, meu único companheiro fiel e paciente, amigo confidente, guardião dos meus secretos sentimentos. Ainda tento voltar as minhas linhas para outro foco, mas me prendi há muito tempo dentro de mim mesmo. Agora não sei me desprender. Realmente, só um papel pode me entender.
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