Cotidiano
Ela caminhava sozinha pela rua escura e sombria. Seus olhos pareciam cegar-se pelo vento empoeirado daquela tarde suja de domingo. Parecia esperar algum tipo de salvação ou de redenção, o que primeiro aparecesse e pudesse salvá-la daqueles últimos pensamentos. Não sabia para onde ir. Seus pés descalços pela calçada pedregosa eram furados a cada passo adiantado. Sentia a onipresença involuntária daqueles antigos pensamentos. Pensamentos esses que durante toda a sua jornada a perturbavam cada vez mais. Pareciam vultos, ou para melhor explicá-los, fantasmas. Continuou andando, sem rumo, sem direção e nem sentido, mas nada mais parecia ter sentido. Foi interrompida mais uma vez pelos mesmos sentimentos obscuros, agora acompanhados por uma nova vontade, a de desistir de tudo, a de não continuar seguindo sem rumo para lugar nenhum. “Não seria melhor parar e saber para onde vou primeiro?”. Refletiu. Mas antes mesmo de se dar uma resposta, pensou em continuar seguindo, sem ponto de partida nem de chegada. Afinal de contas, a quê ela iria se negar? A mais uma brusca sensação de medo e aflição que a perturbara durante todo o seu caminho? Aquilo já não era mais importante. “Seguirei, com certeza irei chegar a algum lugar!”. Indagou-se mentalmente. Mas nada passava. Não conseguia chegar a lugar nenhum. Começou a ter medo, a se sentir fraca. Queria ter alguém, mas estava só. Não pensou em mais nada. Foi o único momento de sua vida em que conseguiu caminhar sem ter novamente aqueles sentimentos sombrios. Queria estar certa de qualquer coisa que fosse, mas naquele instante não tinha certeza de nada. Quis voltar para perto dos seus, mas quem eram “os seus”? Não tinha nada, nem ninguém, nunca tivera, era só uma mulher solitária vagando no infinito. Não teve nenhuma vontade. Naquele instante desejou sumir. De repente um vento frio lhe cobriu todo o corpo inerte naquele monte de coisa nenhuma. Teve mais intensamente a certeza de estar só. Fechou os olhos e sonhou, com alguma esperança que viesse, qualquer esperança que a livrasse daquela escuridão. Sentiu a presença de alguém. “Estou sonhando?”. Pensou. Quis chamar aquela sombra para perto de si. Hesitou profundamente. “Será que estou louca?”. Percebeu um suspiro, um afago talvez. Pensou que aquele “corpo” parado diante dela, talvez tivesse também as suas mesmas aflições e os seus mesmos sentimentos. Quis lhe perguntar, mas foi calada por algo ainda mais forte, o seu medo. Mas medo de quê? De que teria medo, àquela altura de sua vida? Decidiu arriscar. “Quem está ai?”, gritou, sem obter resposta alguma. “Quem está ai, por favor!”. Insistiu, num grito ainda mais alto, na ânsia de obter qualquer resposta. Nada. Nem um suspiro sequer. Sentiu-se só novamente. “Essa solidão me mata!”. Olhou ao seu redor, continuava sem uma alma viva. Foi então que sentiu um calafrio, tão intenso que parecia ser sinal de alguma mudança. Mas o que iria mudar? Se dentro ou fora daquele mundo ela iria se sentir sozinha, ela iria ser sozinha? Iria ser sempre aquela mulher, sem expectativas e sem inspirações para qualquer ação ou reação. Naquele velho mundo, o que te restava era a solidão. Decidiu andar, vagar novamente por aquela rua escura e cinzenta. Pelo menos estaria tranqüila, pelo menos nada a perturbaria a não ser o silencio, e este era um velho companheiro.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário