segunda-feira, 27 de julho de 2009

CULTURA BAIANA (?)

Artigo:

Cultura baiana: motivo de desaprovação?

O baiano é culturalmente plural, cheio de misturas, ritmos e crenças. Possui uma infinidade de manifestações culturais singulares, com grande teor artístico e alta qualidade. O cinema, o teatro, seus atores e diretores, os artistas plásticos, suas obras... Por mês acontecem aproximadamente 200 apresentações culturais registradas pela Fundação Cultural do Estado, que vão do teatro à exposições fotográficas.
Porém, se formos contabilizar o público que estas apresentações alcançam, vamos, certamente, encontrar um número muito limitado. Não encontraremos justificativa mais aceitável para este caso do que o fato de que o baiano não se interessa o suficiente pela arte baiana, pela cultura construída por nós. Sim, porque se formos analisar o número de público atingido por um filme norte-americano, com certeza acharemos uma quantidade significativa. Até mesmo de um filme nacional feito pelos Estados do Sul e Sudeste, são melhor aceitos pelo público baiano, que, muitas vezes, nem chega a saber da existência de uma tradição do cinema baiano, ou conhecer nomes como Glauber Rocha ou Edgard Navarro.
Atores, cantores, diretores, bailarinos, no geral, os artistas baianos para serem reconhecidos pelo seu trabalho, precisam sair da Bahia, precisam aparecer nas telas do “Plim-plim”. Senão, nadam, nadam e morrem aqui na Bahia, como anônimos, eternamente. Muitas vezes, a qualidade dos artistas baianos é superior, mas o fato de serem baianos os transforma. Falando da Globo e de suas novelas e filmes, excluindo a atual ascensão de atores como Lázaro Ramos e Wagner Moura, antes o baiano ou era empregado, ou da família do empregado, ou o turista, mas era sempre dotado do estereótipo do “preguiçoso”.
Lázaro e Wagner são ótimos exemplos de que para se fazer sucesso e ter o devido reconhecimento pelo seu trabalho, é preciso passar por um processo de “sudestização”, afinal de contas, eles perderam o sotaque, o simples reconhecimento da sua origem para enfrentar seus últimos personagens. Quem não é baiano, quando interpreta um personagem da Bahia, puxa um “meu rei” “lascado”, ou então, uma fala arrastada nos “tês” e nos “és”, que nem é típica do soteropolitano (que tenta, por tudo, ser “sudestizado”).
Por isso mesmo que o baiano só consegue reconhecer o que vem de fora, porque vê o estereótipo. A sua arte só vale alguma coisa quando está lá, na tela da “tevê” e não “ao vivo e à cores”. Muitas pessoas “torcem a boca” para assistir a uma apresentação gratuita do cantor baiano Gerônimo, mas paga oitenta reais para show do cantor carioca Seu Jorge.
É difícil pro baiano reconhecer o trabalho do próprio baiano, também, é importante ressaltar, por causa da mídia. Esta tem como função transformar o Brasil em Rio e São Paulo, e por isso, os baianos não querem ser baianos. A Bahia só tem axé e Carnaval, e por isso muita gente boa que tenta fazer algo diferente disso é tida como alternativa, por ser diferente do padrão. Citando um trecho da música de Rita Lee e Zélia Duncan: “nem toda a feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda!”, assim como nem só de Carnaval vive a Bahia!


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

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