segunda-feira, 27 de julho de 2009

De cabeça erguida

De cabeça erguida



E quando eu achei que seria possível andar pelas ruas de cabeça erguida, eu tropecei e caí, de novo dentro de mais um martírio. Nunca se sabe quando se tem amigos de mais, ou de menos. A gente sempre espera receber daqueles que a gente ama o mesmo amor que a gente oferece, voluntariamente, mas nunca é possível controlar os sentimentos do outro. Ah se fosse possível... O que eu mais queria era não ser ignorada pelo que eu sou, nem pelo que eu fui, nem de jeito nenhum! Eu queria andar pela rua de cabeça erguida, cheia de amor pra dar e pra receber! Será que é pedir demais? Não sei, acho que não. Se Deus amasse todos da mesma maneira não existiria sofrimento ou amor demais, ia ser tudo igual como todos pregam. Às vezes eu começo a achar que nunca fui amado por Deus, ou melhor, que Deus é apenas uma farsa, uma última alternativa para os desesperados, porque quem possui alento e pode caminhar de cabeça erguida pela rua não precisa de Deus. Eu queria ser amada demais ou de menos, mas de acordo com o meu amor! Será que é egoísmo pedir que se dê o mesmo que se recebe? Cansei de todo o meu altruísmo. Cansei mesmo! É preciso ser amado também para amar, quem é seco não pode amar! Será que o que resta de mim são as palavras aos ventos, a difusão de palavras loucas ao vento cíclico? Que ao final do dia tudo retorna para mim mesmo? Mas eu estou fazendo a coisa certa! Eu juro! Se existe mesmo um Deus, este está comprovando seriamente que eu estou indo pelo caminho certo! Eu não calunio há séculos, nem pra mim mesmo, o que já é um grande início! Eu li todos aqueles dez mandamentos imbecis e segui à risca todos eles, sem pestanejar. Orei ou rezei, não sei ao certo, mas agradeci a Deus (se ele existe) todas as bênçãos alcançadas e pedi solenemente, num gesto bonito, de dar orgulho a qualquer um, para que Ele continuasse me abençoando sempre. Me garanti, afinal de contas não se sabe o dia de amanhã, não é mesmo? Achei que tinha tudo aos meus pés e mãos, ao alcance de onde quer que eu quisesse chegar, e achei que fosse feliz. Foi então que eu, miserável, observei ao meu redor a minha impregnante insignificância. Foi então que eu notei que não fazia diferença em qualquer lugar que eu fosse. Eu era (e sou) um grão de areia da praia, mas aquele grão solitário, sem ninguém por perto, aquele que ninguém nota e que todos renegam. E nem adianta vir com aquele papinho mixuruca de que qualquer grão de areia faz a sua parte e todo aquele blábláblá de encher lingüiça. Ninguém sente falta daquilo que renega. Aquele papinho do “Pequeno Príncipe” de que “cada um é responsável por aquilo que cativas” é pura lorota. Eu fui cativado inúmeras vezes, até correspondi e ainda hoje espero um gesto ínfimo de notabilidade. Sou um renegado da natureza, sou um pequeno pedaço de nada. Mas o que eu queria mesmo, era andar pela rua de cabeça erguida, sem olhar pra trás.

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