Ele nunca significou nada pra ela, era apenas mais um no meio da multidão. Mas naquele dia, ela o olhou de maneira diferente, diferente inclusive da maneira como ela olhara para todos os rapazes até então.
Aquela menina mirrada, desengonçada e tímida não entendeu direito o que estava pensando, ou sentindo. “Vamos dançar Luisinha?”, ele falou. Ela não pensou duas vezes, atirou-se em seus braços como quem pede socorro.
E pediu. Parecia que ela precisava se livrar de algo que não sabia o que era. Parecia que ela estava sofrendo de uma grande angústia sem fundamento, a qual não sabia como e por que sentia.
Quando encostou seu rosto no peito do rapaz, seu mundo parou, sentiu-se profundamente amparada e protegida. Era como se ele sentisse a sua dor incógnita e quisesse resgatá-la de si mesma, sem nem ela saber direito o que pensava.
E os dias nunca mais foram os mesmos após aquele baile do colégio. O menino alto, branco, de olhos azuis, nunca mais foi invisível.
As aulas passaram a ser mais agradáveis. Os dias não eram mais tão tediosos. Eles estudavam na mesma sala e a partir de então, passaram a se sentar sempre juntos. Vez em quando, ensaiavam um abraço contraído e tímido, meio medroso, mas ainda assim confortável.
E ela sonhava com ele todos os dias e noites. Estava então apaixonada pelo sorriso e pelo abraço que tanto lhe acolhia. Começou a imaginar todos os tipos de situações em que se revelaria para ele. Pensava que ele lhe diria o mesmo, sonhava com o dia em que eles poderiam se beijar.
Foi num dia ensolarado de verão que ela resolveu se declarar. Seu coração nunca batera tão forte em toda a sua vida. A turma iria para a praia e com certeza ele também estaria lá. “O lugar perfeito”, pensou.
Após horas de ensaio frente ao espelho, ela foi ao encontro dos amigos. Ao chegar, ele logo se levantou para cumprimentá-la e abraçá-la, como de costume. Não demorou muito e ela pediu para que eles conversassem.
Saíram caminhando pela areia fofa em silêncio. Depois de alguns minutos calados, ela se pronunciou, curta e grossa: “Eu gosto de você!”. Ele interrompeu a caminhada com uma expressão de surpresa. Naquele instante, se ela pudesse, retiraria palavra por palavra do que havia dito.
“Sabe Luisinha, às vezes a gente confunde as coisas e não se toca. Eu sei o que está sentindo, ou melhor, o que pensa sentir e é completamente normal! Nós dois fomos como um suporte um para o outro num momento em que ambos precisávamos. Gosto muito de você, nem eu mesmo sei porque, mas é um gostar de amigo. Não quero magoar você, aliás, é a última coisa que quero. Sei que você confundiu as coisas, eu sei! Então é melhor a gente se afastar por um tempo”.
Aquelas palavras finais soaram-lhe como navalhas. Será mesmo que ela estava confundindo? Será que estava realmente gostando dele, ou será que tudo não passou de carência? Afinal de contas, ela o percebeu quando mais precisava de alguém.
A partir de então, os dois foram se afastando, cada dia mais. Um dia se cumprimentavam, outro dia nem se olhavam. Dentro em pouco, os dois não se falavam mais. Voltaram a ser como antes, “apenas bons colegas”. A falta que ele lhe fazia era tanta que pensou inúmeras vezes em tentar aproximar-se, mas lembrava de tudo o que ele lhe havia dito, no tempo que os dois precisavam para entender o que sentiam.
Passaram-se dias, meses, anos... Dez anos no total. E mesmo depois de tanto tempo, ela continuava a pensar em como seria se tudo tivesse ocorrido de outra maneira. Se naquele dia na praia ele tivesse dito outra coisa, ou ela não tivesse se declarado.
Nunca mais eles haviam se encontrado ou souberam notícias um do outro.
Naquela manhã de um novo dia, ela lembrou-se dele. Lembrou-se da maneira como ele a abraçava, como cerrava os olhos ao sorrir, como era lindo o seu sorriso... Sentiu saudade. Saudade da primeira vez que o reparou.
Ainda debaixo das cobertas, olhou o sol por entre a janela. Era um sol escaldante de dezembro, um dia lindo. Resolveu ir à praia, aquela mesma praia de dez anos atrás. E foi. A cada passo, lembrava-se daquele dia, dos ensaios diante do espelho, da sua mão fria ao encontrá-lo, do sorriso desconcertante e precipitado antes de conversarem. Caminhava pela areia em silêncio, apenas acompanhada de suas lembranças.
Tentou esquecer aquelas memórias, mas não conseguia. “Idéia mais estúpida”, pensou. Antes que arriscasse mudar de pensamento, avistou um homem sentado na areia, exatamente onde ele havia lhe dito todas aquelas palavras tristes. Não quis acreditar. “Imaginação, só pode!”. Era mesmo ele. Por um instante, sentiu tudo aquilo que havia deixado para trás. Mãos trêmulas e geladas, coração saltitante, voz acanhada. Olharam-se fixamente por alguns segundos. Ele também parecia não acreditar em seus olhos. Levantou-se devagar, como se não quisesse apagar aquele momento, como se não quisesse que sumisse nem um instante sequer. Abraçou-a como antigamente, com o mesmo desespero surdo e amigo do primeiro encontro percebido.
“Vamos dançar Luisinha?”, perguntou. Ali, na areia, frente ao mar, dançaram ao som dos corações um do outro. Celebraram aquele abraço, desconhecido há tantos anos, mas jamais esquecido. E como continuaram? Ninguém sabe. Apenas viveram aquele instante, como viveram outros inesquecíveis.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário