Perfil:
Jorge Araujo: uma literatura da Bahia que poucos lêem
Certo dia, ele estava sentado num restaurante no Rio de Janeiro comigo e mais duas de suas filhas, seu genro e seu neto Gabriel. Havia um rapaz sentado numa mesa em frente à sua e o encarava desde o momento em que ele chegou ao local. Pedimos o almoço, a sobremesa, o cafezinho e o rapaz continuava o olhando fixamente. Ele já estava incomodado com aquela situação e não sabia o porquê daquele jovem o olhar daquela maneira. Pagou a conta insatisfeito com o que ocorria e, num gesto súbito, desviou do caminho da saída do restaurante e encaminhou-se para a mesa do tal rapaz. Parou diante dele, pôs as mãos sobre a mesa e disse: - Eu não sou o Jorge Aragão!
De fato, ele não é o Jorge Aragão, é outro Jorge: Jorge de Souza Araujo. Os dois “Jorges” são, realmente, muito parecidos, mas este, o Araujo, é um escritor baiano de muito prestígio por todo o Estado, porém, com sucesso mais evidente no sul e no recôncavo da Bahia. Nasceu na cidade de Baixa Grande, em 7 de janeiro de 1947. Fez curso primário em sua cidade natal e transferiu-se em fins de 1960 para Itabuna, onde concluiu o ginasial. Logo após, mudou-se para Ilhéus e depois Salvador, onde finalizou o colegial. Licenciou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, em 1972, unidade que atualmente é integrada à Universidade Estadual Santa Cruz.
O Jorge Aragão da literatura baiana tornou-se mestre em 1980 e doutor em 1988 pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defendendo a dissertação “O idioma político afro-nordestino de Jorge de Lima” e a tese “Perfil do leitor colonial”, respectivamente. Militou em teatro, rádio e jornalismo impresso, tendo participado da equipe inaugural do jornal Tribuna da Bahia. Foi repórter do Jornal da Bahia, em 1968, e Luta Democrática, em 1976.
Fez diversas críticas literárias para jornais, revistas e outras publicações. Atualmente é assíduo colaborador do suplemento A Tarde Cultural, e escreve crônicas semanalmente para o jornal Agora, local da cidade de Ilhéus, onde reside. Sua vida literária é recheada de antologias de conto, poesia e ensaio; livros de autoria própria, conferências que ministra por todo o país, em cursos, oficinas, palestras e congressos.
Jorge Araujo foi vencedor de muitos prêmios e concursos, ganhando destaque prêmios pela Academia Baiana de Letras, Prêmio Jorge Amado e Prêmio Anchieta. Apesar dos infortúnios, como o próprio afirma, Jorge ainda se considera professor, tendo começado no ensino ginasial e médio e concluído como professor universitário, às Universidades Estaduais Santa Cruz, de Feira de Santana e às Federais do Rio de Janeiro e da Bahia, por onde se aposentou.
Atualmente, ministra cursos de pós-graduação nas universidades estaduais da Bahia. Um de seus livros foi incluído na lista de leitura obrigatória da Universidade Santa Cruz, Os Becos do Homem. Jorge Araujo (sem acento) é desquitado. Possui quatro filhas, duas do seu casamento e as outras duas de mães diferentes e três netos das duas filhas mais velhas. Suas filhas são envolvidas com letras ou comunicação, menos a mais jovem, que tem apenas 13 anos. Jorge Araujo é muito simpático e extrovertido.
Jorge é um grande admirador de cultura, pois em sua casa coleciona uma enorme quantidade de discos de vinil, CDs, DVDs, livros e fitas K7. Com um vocabulário extenso, não demonstra prepotência, pois sabe conversar com qualquer pessoa sem que o outro se sinta excluído. Jorge é ovacionado onde mora. Em todos os cantos da cidade, é recebido com grande festa. Os habitantes de Ilhéus afirmam ter orgulho por conhecerem um letrado tão simples e ao mesmo tempo genial.
“E ainda por cima é baiano e mora entre nós”, dizem. Jorge gosta de viver sozinho. Sua casa tem piscina e banheira de hidromassagem. É tão prestigiado por ser um professor “completo”. Os alunos afirmam que ninguém tem coragem de interromper sua aula, não por ele ser arrogante, mas por ser tão brilhante que ninguém tem coragem de atrapalhar sua genialidade. Jorge foi militante do Partido Comunista Brasileiro, chegou a ser preso, inclusive, mas logo liberado.
Lutou direta e indiretamente pelo fim da ditadura no Brasil, através de sua escrita, sua maior arma, acredita ele, até hoje. Anos mais tarde, em 2004, chegou, a se candidatar a vice-prefeito de Ilhéus para que o legado do seu partido não fosse abandonado. Foi anunciado como vencedor, ao lado do candidato a prefeito Rui, pela aliança entre o Partido dos Trabalhadores, PT, e o Partido Comunista do Brasil, PCdoB, ao qual Jorge é filiado.
Na realidade, o candidato vencedor teve a candidatura impugnada, por ocorrer suspeita de corrupção, assumindo, mesmo que por apenas alguns segundos, o segundo colocado, candidato de Jorge. Depois, o tal vencedor assumiu de verdade. Mas ele não gosta de se envolver com política. Tanto que se candidatou achando não obter sucesso nas urnas. Quando recebeu o resultado, levou um susto imenso.
Jorge assume não ser um pai tão presente. Acredita que isso se deva ao mundo literário ao qual está mergulhado e que lhe toma muito tempo. Mas isto o fez sempre incentivar suas filhas a estudar e a ler bastante, o que as motivou a engrenar ou na carreira das letras, ou na carreira da comunicação. Quando está “em processo de produção”, não gosta de ser incomodado. Tanto que chega a passar dias em seu escritório, não desce nem para comer nem para dormir: tudo lhe chega às mãos. Neste momento, ele encontra-se neste período, tanto que nem sabe que sua última neta nasceu. O mais engraçado desta história é que sua filha mais velha, Izidora, mãe de sua última neta, está neste momento morando na sua casa.
Jorge ainda acredita que os baianos consigam gostar da leitura. Quando perguntado sobre cultura alternativa, ele se auto definiu como membro desta cultura, já que nem todos acessam, apesar de terem acesso. Sua literatura é universal, é por isso que ele continua a escrever, é por isso que ele segue acreditando. Só gostaria de ser mais reconhecido, não pelos prêmios que recebe, mas pela quantidade de gente que ele atinge.E, com orgulho digo: Jorge de Souza Araujo também é meu pai!
(Elisa Bastos Araujo - 2007)
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Lindo texto, Elisa. Sou orientando de Jorge Araujo, seu pai, no mestrado da UEFS. A genialidade de Jorge é tão grandiosa quanto sua humildade. Tê-lo conhecido foi minha maior vitória até hoje.
ResponderExcluirJosé Roberto.