segunda-feira, 27 de julho de 2009

A MENINA QUE COMIA VENTO

A menina que comia vento


Sentada à beira do abismo, ela sentia o vento soprar-lhe os olhos, tapar-lhe os sonhos e desejos e, ao mesmo tempo, abri-los bem fundo jogando-os ao mundo. A menina gargalhava e de boca escancarada buscava reter todo o vento bom que lhe soprava alegrias. Ela o devorava, e a cada mastigada era uma enorme gargalhada, daquelas bem perceptíveis, daquelas que qualquer pessoa invejaria.
A menina não abria os olhos, apenas sorria, e mastigava o vento, mastigava-o vorazmente, com fome de vivê-lo. O vento trazia-lhe pó de tempo e de passado, seus e dos outros, mas levava embora todo o seu que já não lhe servia mais. Vinha o pó branco, voava o cinza.
Comia o vento tão fugazmente que, às vezes, lhe doía a face, pois o vento também batia. Mas não lhe doía tanto, pois ela gargalhava, e gargalhava alto e forte.
A moça abriu os olhos e viu todo o vento que comia e todo o vento que voava. O vento cortou-lhe os cabelos, os pensamentos e os sonhos... Ah, os sonhos... Cortou-os tanto que os fez reais!
A moça, agora, havia sido lapidada, feito uma pedra pela água, pela terra ou pelo vento. Vento que a menina devorava num golpe só.

Nenhum comentário:

Postar um comentário