segunda-feira, 27 de julho de 2009

O NEGRO NAS NOVELAS

O negro nas telenovelas brasileiras


O documentário A negação do Brasil – O negro na Telenovela retrata os estereótipos que os atores negros representam nas telenovelas. A cultura brasileira é marcada por uma identidade múltipla, uma mescla de culturas, assim como, de acordo com a teoria culturológica, são todos os povos, já que ninguém é desprovido de cultura.
Nas novelas brasileiras, os negros interpretam papéis limitados e geralmente seus personagens são subordinados. Escravos, capatazes, a “mãe preta” da literatura brasileira e a “nanny” do cinema norte-americano, eram os papéis dados às atrizes negras gordas, suas personagens eram sempre bem humoradas e protetoras; empregadas domésticas (as que participam da vida da casa na qual trabalham, são em sua maioria de personalidade forte, palpiteiras), o fiel guarda-costas do patrão, também mostrando que a relação entre o branco e o negro é sempre de amor, dedicação e submissão do negro para com o branco.
Quando a televisão expõe determinado estereótipo acerca dos negros, faz com que uma infinidade de pessoas pense que estes estereótipos condigam com a realidade e isto influencia no modo com que as pessoas se relacionam umas com as outras. Isto gera uma série de conseqüências, devido à grande disseminação promovida pela mídia através das novelas.
O documentário mostra que a nossa diversidade racial e cultural transforma-se, nas telenovelas, no paradoxo de um Brasil branco. A pesquisa mostra de forma incisiva que o lugar do negro nas tramas exibidas na televisão não mudou e que continua a se reproduzir no século XXI. Na cena da novela A Escrava Isaura, por exemplo, quando o personagem Álvaro liberta os escravos de sua fazenda, os escravos colhem os louros de um ato de bondade do senhor branco. A partir da novela, Joel Zito discute o papel do negro e mostra que a mídia reforça a identidade negativa. O documentarista reavalia os estereótipos que influenciam o comportamento da sociedade.
A telenovela faz parte da cultura de massa e passa aspectos e idéias a partir das suas cenas e da sua história. Mesmo com todas estas características, a telenovela busca reafirmar a democracia racial. O fator que afasta o negro das novelas é o mesmo que também afasta o pobre: isto apresentaria um mundo que incomodaria o público da classe média. Talvez tenha sido por isso que a mescla cultural tenha se apresentado nas novelas de forma tão equivocada, já que, com os estereótipos, era necessário que o negro “se mantivesse em seu lugar”, sua posição inferior.
Em novelas, o negro mais bem posicionado, de acordo com o documentário, foi o personagem Otávio, na novela Gaivotas. Porém, o personagem não teve nenhuma função na trama, além de ser amigo fiel do seu patrão e ser constantemente humilhado por sua namorada. Apesar de apontar os preconceitos, o autor da novela afirmou os assédios da preconceituosa empregada Lúcia e, no final, só restou a Otávio ficar com ela.
Outro ponto relevante no documentário é a declaração do ator e cantor Toni Tornado. O personagem de Tornado em Roque Santeiro chamava-se Rodézio, e trabalhava para a Viúva Porcina, interpretada por Regina Duarte. Ele construiu uma relação íntima de carinho com Porcina, e enquanto todos a odiavam, ele permaneceu firme ao seu lado. Tudo indicava que ambos iam ficar juntos no término da novela, mas isto não ocorreu e nunca foi divulgado até a apresentação do documentário.
Há, ainda, a declaração do diretor Walter Avancini sobre a novela Gabriela, da Rede Globo, em que afirma com naturalidade: “não havia atrizes negras preparadas para o papel. Se eu colocasse uma negra para interpretar Gabriela, naquelas condições, seria a reafirmação de que o negro não tem talento.”.
A mídia, neste caso, tem papel fundamental na formação identitária do negro no Brasil, já que com a disseminação das novelas e, consequentemente, a disseminação desses estereótipos, esta denotação faz com que haja conseqüências destas representações nos processos de construção da identidade brasileira.
Isto reafirma a importância dos veículos de comunicação de massa para a formação da cultura de massa, principal estudo da teoria culturológica. Para esta teoria, a cultura de massa, antigamente conhecida como baixa cultura, por Adorno, a relação é estabelecida entre o consumidor e o objeto de consumo, não importando o efeito gerado. O imaginário do consumidor se interpõe entre o sujeito e o produto, determinando se o objeto de consumo é ou não significativo para ele. Agora, o consumo do produto pode ou não esvaziar, há uma relação de consumo consciente, já que o que irá determinar o esvaziamento é o modo como o produto será consumido.
A cultura de massa, agora, forma um sistema de culturas, constituindo-se como um conjunto de símbolos, valores, mitos e imagens. Na sociedade contemporânea, a cultura é formada pela hibridização de culturas, assumindo realidades policulturais, e a teoria culturológica estuda, justamente, estes pontos de conexão entre as diversas culturas.


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

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