Superstição
Acordei ansioso, depois de um sonho estranho com o meu braço. Sonhei que este ficava em pedaços depois de pisoteado por uma manada de elefantes. “Que estranho!”, pensei. Uma manada de elefantes na minha casa! O sonho se resumia a isso, era apenas isso, uma infinidade elefantes andando e andando por cima do meu braço, a noite inteira, como se fossem os carneirinhos saltitantes quando tentamos dormir. O mais engraçado de tudo é que eu não me lembro de sentir dor. Levantei-me da cama como de costume, sempre pelo lado esquerdo. Sou contrário às superstições. Sou contrário a tudo o que é óbvio e efeito de modismos. Sim, porque houve uma época em que o esoterismo e as crendices estavam “em alta”. E houve uma época também em que Nostradamus previu o fim do mundo em 10 de agosto. Eu me pergunto até hoje como algumas pessoas caíram nessa balela. Por isso nem me abalei. Se tivesse contado à minha mulher, com certeza ela iria tirar milhões de interpretações, ou me mandaria para sua vidente particular. O que achei estranho foi a manada de elefantes na minha sala de estar! Enxagüei o rosto milhões de vezes. Elefantes, na minha sala? Sentei à mesa, tomei meu café preto enquanto lia o jornal de segunda-feira. Minha mulher esquentava o pão das crianças. Olhei-a por alguns instantes. Como é idiota essa mulher... Queria poder contar-lhe o que me vem à cabeça de vez em quando! A menina mais velha amassava a banana com granola e leite em pó, “para limpar a pele”, ela dizia! Isto logo depois de tomar dois copos de água, como ensinou a revista teen, que lhe servia de bíblia. Adolescentes são tão infantis, e as mulheres então, acham que os homens ligam para a sua ridícula vaidade! Ah, como são tolas! Saí de casa. Com o alívio de sempre. Enfim veria gente normal, como eu! Gente que não liga para esse tipo de besteira! Cheguei ao trabalho e, como de costume, deixei meu paletó no braço da poltrona cinza. Sentei na cadeira e suspirei. Ainda me perguntava o porquê de tantos elefantes, e na minha sala.
-Com licença, Sr. Cláudio, vim lhe trazer os relatórios que o senhor me pediu ontem.
-Jonas, você já sonhou com algo estranho? - perguntei-lhe antes que ele deixasse a sala.
-Claro que sim, senhor! Todo mundo uma vez na vida teve um sonho estranho! Isso é normal! Com o que o senhor sonhou?
-Com uma manada de elefantes dentro da minha casa... Pisoteando o meu braço!
-Xi, doutor Cláudio, dizem que quem sonha com braço quebrado, tem uma grande decepção!
-O que me aflige não é o braço, Jonas, e sim o fato de terem tantos elefantes na minha casa! E eu não acredito em interpretações de sonhos, obrigado! Agora pode ir!
-Sim senhor!
“Meu Deus, mais um imbecil no mundo!”, pensei. E durante aquele dia, mais e mais pessoas tentaram interpretar aquele maldito sonho. Pra completar a minha teoria, só saíram interpretações ruins. Como as pessoas buscam interpretar a vida da pior maneira... Resolvi deixar toda aquela asneira pra trás, afinal de contas, eu não acredito em nada disso! Quando deixei o serviço e entrei no carro, vi o zelador do prédio em que trabalho sentado num engradado de cerveja vazio.
-Boa noite, “seu” Cláudio!
-Boa noite, Antônio!
-O senhor quer que eu limpe seu pára-brisa? Tá todo sujo!
-Não precisa não, Antônio, eu já estou de saída! Até amanhã!
-Até, doutor!
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