segunda-feira, 27 de julho de 2009

ÚLTIMO CANTO

Elis Regina

“Último canto”

“Vou acender uma vela, vou só cantar o meu canto e vou cantar da maneira, a mais singela” (...).

Na terça-feira do dia 19 de janeiro de 1982, morre a maior cantora do Brasil. Elis Regina de Carvalho Costa, 36 anos, foi encontrada morta, trancada em seu quarto, onde havia tomado uma emulsão de cocaína e bebida alcoólica.
Sua morte provocou grande comoção nacional assim que a notícia circulou pela imprensa. Cerca de 25 mil fãs, amigos e parentes prestaram homenagens em seu velório no Teatro Bandeirantes, centro de São Paulo, palco do seu maior show, “Falso Brilhante”.Aproximadamente mil pessoas seguiram o seu cortejo até o cemitério do Morumbi, na tarde do dia 20.
No auge de sua vitalidade, Elis deixou três filhos, uma herança marcada em seus 27 LPs, catorze compactos simples e seis duplos, que lhe renderam em vida 4 milhões de cópias; além de uma das maiores vozes do Brasil, que ecoa até hoje, 25 anos após a sua morte.
O laudo que comprovara a causa de sua morte foi divulgado na quinta-feira, dia 21, cho-
cando a população que até então permanecia com dúvidas e incertezas. A médica que recebeu o seu corpo no Hospital das Clínicas, não pôde atestar uma morte natural e o corpo de Elis foi encaminhado para autópsia pelo Instituto Médico Legal, onde foi confirmado que o agente de sua morte tinha sido realmente, uma intoxicação combinada entre bebida alcoólica e cocaína.
Antes de se veicular essa notícia, houve muita resistência de parentes e amigos da cantora, afirmando que Elis não usava drogas. Tentaram, inclusive, com que fosse evitada a realização da autópsia. Além disso, amigos e familiares de Elis suspeitavam do diagnóstico, já que alegavam manipulação por parte do diretor do IML na época, o legista Harry Shibata, o mesmo que atestou o suicídio de Vladimir Herzog, na época da ditadura. Segundo familiares e amigos da cantora, o Dr. Shibata tem “ressentimento” de Samuel Mac Dowell, namorado de Elis na época, já que este foi um dos advogados da família Herzog e que conseguiu provar a irregularidade na assinatura do laudo de morte de Vladimir. A família afirma que a cantora não usava drogas, mas o próprio médico da família, Álvaro Machado Jr., afirmou mais tarde que o exame foi irrepreensível. Mac Dowell, bem como familiares e amigos, pretendiam preservar a imagem de Elis, principalmente para os filhos.
Elis estava feliz nos dias anteriores, tanto que ninguém imaginaria tal acontecimento. Ela e Mac Dowell planejavam morar juntos. À véspera de sua morte, ela recebeu um grupo de amigos em sua casa, em um clima muito agradável. Por isso, ninguém acredita na possibilidade de Elis ter cometido suicídio.
Não se sabe até hoje o que levou à morte de Elis. Existem incógnitas a respeito de uma possível discussão ao telefone entre Elis e Mac Dowell, que nega essa hipótese. Porém a empregada de Elis diz ter escutado, por volta da meia noite da segunda-feira, Elis encerrar um telefonema com um palavrão. O delegado responsável pelo inquérito, Geraldo Branco de Camargo, disse não encontrar nenhuma contradição nos depoimentos dados à polícia.
Elis Regina, ou como ficou conhecida, “Pimentinha”, deixou pra trás uma carreira belíssima, cheia de inseguranças para subir ao palco, mas cheia de vitalidade quando estava com os pés no tablado; marcada pelas parcerias brilhantes e pela exposição de artistas até então desconhecidos, como Gilberto Gil ou Milton Nascimento. Deixou amigos e fãs eternos, insaciáveis pela sua voz insuperável, de agudos, graves e extensão invejada por muitos artistas.
“Em busca de um sol maior, Elis Regina embarcou num brilhante trem azul, deixando conosco a eternidade de seu canto pelas coisas e pela gente de nossa terra. E uma imensa saudade.”
Sua memória resistirá à situação dramática e não terá o seu valor artístico julgado pelos padrões da sua vida. Só a morte conseguiu para Elis que os caminhos fossem abertos para a julgarem como artista, sem confundir com sua vida pessoal e suas escolhas erráticas.
“Me tomam por quem? Uma imbecil? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde, já estou amarela. Eu sou do contra. Sou Elis Regina de Carvalho Costa, que poucas pessoas vão morrer conhecendo.” Engana-se Elis, você é e continuará sendo por muitas gerações a eterna Pimentinha, a maior cantora do Brasil.


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

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