quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O rei do mundo

Por Elisa Bastos Araujo
6 de agosto de 2009.


É algo realmente inédito encontrarmos um negro, de nome muçulmano na presidência dos Estados Unidos, considerando toda a história do país. Inteligente, sólido, contundente, consciente, ele é um cara preparado, disposto, capaz. Mas ele não é Deus, não pode mudar sozinho e completamente o rumo de todo o mundo. Pelo contrário, é um homem, com todas as suas limitações, angústias, questionamentos, indecisões, amabilidades e a falta delas. Ou seja, não consegue sobreviver sozinho, isolado. E, afinal, é norte-americano.
Então, porque esperar que ele não erre, que não cometa equívocos, que não assuma a postura típica dos norte-americanos quando necessário (afinal, é isso que esperam dele)? É sonho demais, já que ele não é aculturado, não pretende viver nem governar fora da realidade e dos tradicionalismos estadunidenses. É utopia achar que ele pense no resto do mundo em primeiro lugar. Nós, captadores de seus costumes, ou do lixo deles, acabamos absorvendo tanto a sua cultura que sorvemos, também, suas esperanças e expectativas. Ele pode, sim, mudar uma realidade, mas não toda ela.
Tenho a impressão de que os norte-americanos vivem ainda no tempo pré-Copérnico, mas que, ao invés de crerem na Terra como centro do universo, crêem nos Estados Unidos da América como o centro da Terra. Justificam a interferência, mesmo que contrariada, em outros países, pregam o tom civilizatório e opressor da época da colonização (claro, que em proporções tecnológicas e enquadradas ao nosso século XXI), julgam-se mais evoluídos, civilizados, não selvagens, embora convencionais até o talo às aparências, mesmo que a subvertam. Because: “Yes, we can!”. Os donos do mundo acabaram nos impondo a crença de que Deus existe, e o nome dele é Barack Obama (afinal, você não acha que tudo isso não seja nada além de um golpe de marketing, para os grandes inventores desta expressão?).
Não duvido, em nenhuma hipótese, que ele seja uma pessoa engajada. O que duvido é que ele queira romper com as diferenças, que fazem o seu país “superior” e que fazem dele o homem mais poderoso diante do planeta. Duvido que ele não pretenda jogar com as expectativas para consolidar sua política de forma confiável, retomar a fidúcia do resto do mundo, abalada pelas ações do monstruoso George W. Bush. O que me assusta é a maneira como ele é utopicamente venerado, algo que, mais tarde, pode trazer a ele problemas de identidade que o conduzam à terapia.
Não creio, também, que o simples fato inédito da sua eleição traga imediatamente a benevolência, o respeito e a tolerância aos povos não norte-americanos, inferiores, minorias, ou seja, somente o resto do mundo. Eles não deixarão de pensar em nós como selvagens, sexuais (e não sensuais), inferiores culturalmente (devido ao sol intenso que recebemos na cabeça nas terras abaixo da linha do equador), só porque um negro é seu governante maior. Eles não deixarão de pensar em nós como os visinhos indesejados, tão diferente e distante deles, não separados territorialmente, mas com uma linha grossa, extensa, imaginária, mas bem real. E não deixarão de pensar em si mesmos como os provedores da sabedoria, da cultura e do que melhor se pode propagar ao resto do mundo. Por isso a xenofobia, a homofobia e tantas outras “ias”, talvez por tentativa de se reafirmarem como poderosos.
Apenas um preconceito foi rompido, e olhe lá, pois isso não significa que ele se dissolveu. Muitos ainda trazem em si a idéia de que todos os muçulmanos são terroristas, suicidas, loucos; que os europeus são fedidos, atrasados, porcos; que os latinos são de outro continente, índios, pendurados em cipós como o Tarzan, nus no samba, no tango ou cantando “la cucaracha” o dia inteiro (além de acharem que a capital de todos os países sul americanos é Buenos Aires). E o que dizer, então, do que acham dos africanos? Presos em tribos, mortos de fome, miseráveis, indigentes.
Não há como descrever a infinidade de conceitos que eles nos descrevem, a falta de vontade de se interessar por algo que não seja o seu umbigo. É possível que se defina o seu conhecimento como a Nova Idade Média, ou, melhor ainda, a Era das Trevas à luz cega da tecnologia. Deduzem tanto que somos sexuais, que vendemos o corpo por qualquer trocado, que nem percebem os seus problemas sexuais, as suas perversões ocultadas (ou tentando ser) pelo puritanismo. Somos apenas menos puritanos, não nos escondemos tanto por trás de tabus. As adolescentes grávidas, as mulheres que tanto desejam ser atrizes no exterior, que acabam, inocentemente ou não, tendo que vender o corpo, são o resultado de uma educação carente, não necessariamente de uma cultura pró-sexo (embora a banalização da bunda, da coxa e do “creu” seja tão evidente). A única diferença se dá pelo padrão da necessidade. Quer dizer, o trabalho pesado, nenhum mauricinho que vive o “sonho americano” quer fazer, mesmo que precise, enquanto um de nós o agarraria com unhas e dentes. É, que grandes provedores de conhecimento nós temos, que sorte a nossa, não?
Na verdade, a visão respeitosa perante as outras culturas está convergindo aos Estados Unidos neste momento, embora eles passem a impressão de que, como bons cidadãos, o respeito surge com a conversão do mundo à sua ideologia. A entrada de mais um presidente do seu país traz apenas perspectiva de mudança política. Se ele conseguir dissolver todos os preconceitos cristalizados em seu povo puritano de fachada, aí sim, direi “Ele é o cara”, pode-se considerá-lo Deus. Enquanto isso, nos limitemos a sonhar com este dia, como povos selvagens que somos, curtindo o nosso carnaval, com as nossas mulatas dançando dia e noite a nossa miséria intelectual.

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