quinta-feira, 30 de julho de 2009

"Caleidoscópio de sensibilidades"


"...textura particular, diapasão específico..."


em miscelânia de textos complexos que também dizem respeito a meu respeito (para variar), apresento um caleidoscópio de sensibilidades, em texturas, complexos sentidos, diapasão de outras especificidades que correspondam a mim mesma (²para variar)...


"CAMINHOS DI VERSOS


Por este caminho di versos

sigo cumprindo minha sina

de plantador de sonhos

de fazedor de rimas..." (Karla Leopoldino)



"não fomos a Paraty

nem fomos passear de gôndola

ando de malas prontas

achando que a vida é uma saudade

- ou um corte de bisturi" (Beth Almeida)

ps: embora esteja mais para corte de quebrantes comunicacionais...



"Minha raiva

tão lúcida

me enlouquece

Tanta consciência enfurecida

meu

eu

reflete" (Suzana Stigger)



"INÚTIL


relógio sem ponteiro

homem sem direção

inútil se está parado

inútil se entra em ação" (Sílvio Ribeiro de Castro)


segunda-feira, 27 de julho de 2009

A[](o) Léo

A[](o) Léo


Te conheci,
um pouco distante, não muito,
mas seus olhos piscaram voluntariamente há pouco,
enormes, ofuscantes de magia e amor, desde o princípio.

E ao léo me apaixonei,
rapidamente, quase instantaneamente,
com a certeza mais certa das possíveis loucuras da vida.

Você surgiu como um imã,
magnetizando minha vida ao encontro da sua,
influindo no meu campo psíquico, enérgico, vitalício,
mexeu comigo, me moveu a um destino que eu jamais traçaria sozinha.

E ao léo me apaixonei,
lascivamente, compulsivamente, de todas as maneiras
com a certeza mais certa dos amores (im)possíveis.

Ao léo, A Léo, Ah Léo...
Amo-te, tanto, de tantas formas, quase todas as faces que o amor possui...
Não sou má, nem feroz, nem violenta, nem possessiva,
sou amante de suas artes, de sua vida, de você...
passiva de tudo o que fazes, implicante à maneira que me olhas,
olhar impregnante (Graças a Deus).
Passiva de seu sorriso, de seu toque, seu afago, seu carinho...
passiva de você, tudo em você, todo você...

E ao léo me apaixonei,
como nunca ou antes me apaixonaria,
como jamais imaginei sonhar um dia me apaixonar, amar...
Porque amar você jamais foi difícil,
é simples, é tempestuoso de sentimento,
característico do que é você.

A[](o) Léo escrevo,
a você, meu nego, meu norte, meu anjo, meu tudo,
amor da minha vida...

O HOMEM SECO

O homem seco


O solo grudava na sola dos pés. Arrancava poeira vermelha, levantava alto as marcas do chão. E também arrancava sangue dos calos abertos pelo quentume da terra lascada. Respirava seco, não tinha ar que pudesse saciar seus pulmões. A única baforada soprava-lhe a nuca, era o sol ardente daquela tarde de setembro.
Os quilômetros iam passando embaçados naquele caminho que sempre lhe parecia familiar. As vistas turvas, os braços aleijados, as pernas iam derreando bambas, tremelicando ao tentar sustentar o peso da sua leve carcaça.
A pele vermelha, branca de tão seca, tentava suar, arrancar qualquer pingo d’água que existisse em si. Ele chupava seu próprio suor feito um bicho para que não escapasse uma gota de baba que pudesse escorrer de sua boca. Chorava sem lágrimas, apenas com o aperto que se sente no peito. Sentia todos os órgãos secos, os olhos grudados, a barriga pesada de tanto vazio. Era um fiapo rasgado de homem perdido num imenso universo vermelho.
Sentia tanto frio, um frio que lhe sugava até a alma. Um frio quente, tão quente que lhe tostava a pele, assava seus miolos poucos, deixava-o cada vez mais fino e manco. E seus passos trôpegos conduziram-no feito um bêbado ao fim do chão. E ele se acabou no que restava de ar, os pedaços de seu corpo ganharam vida ao se estraçalharem no chão.
O coração saltitava ferozmente no peito, como jamais havia saltitado antes. E entre cólicas e convulsões sentiu-se livre, pela primeira vez, sem as amarras que o prendiam àquele chão fumegante. Se corpo desmembrado da cachola... Agora não teria mais que pensar nele, sentir fome, sede, frio ou medo. E ele viu uma imensidão de cores na aquarela do infinito... Pela primeira vez viu um cenário que não era aquele, onde poderia catar seus cacos e montar um novo homem, não mais aquele bicho de cascos calejados. Agora, jamais lhe faltaria ar, ele estava voando...




1º LUGAR - CIRCUITO LITERÁRIO COLÉGIO CÂNDIDO PORTINARI - 2008

TRABALHOS JORNALÍSTICOS:

Cláusula de barreira
Mecanismo para diminuir o número de partidos políticos no Brasil


O Brasil possui atualmente 29 partidos registrados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), grande parte nem conhecidos pelos eleitores. Alguns grupos, fundados recentemente, outros nem conseguiram sequer expressividade no cenário nacional.
Esta é uma realidade que conduz à modificações já para as eleições de outubro deste ano. De acordo com o mecanismo da lei 9.096, os pequenos partidos estarão sujeitos a deixarem de existir, entre os quais destacamos os partidos de aluguel, além de legendas que expressam correntes ideológicas. Institui-se a chamada Cláusula de Barreira, dispositivo que determina aos partidos que não obtiverem 5% dos votos para deputado federal em todo o território nacional, e/ou 2% dos votos para deputados em pelo menos nove unidades do país; sofrerão ônus que podem reduzi-los à total insignificância, excluindo a sua participação parlamentar. O motivo para a inclusão da cláusula de barreira na legislação partidária é a existência de pequenas bancadas no Congresso e a dispersão partidária, que representariam um obstáculo para a formação de maiorias sólidas na votação de questões proeminentes da legislação. Esta cláusula, portanto, entende-se como o conjunto de regras que definem a atuação dos partidos no parlamento, ilustrando o direito à liderança e à participação nas comissões. Os partidos terão, ainda, que eleger no mínimo, um representante em cinco estados.
Além disso, os partidos deverão seguir à risca as regras impostas para a propaganda na mídia, bem como para os recursos financeiros empregados na campanha publicitária. Os grupos políticos não poderão ultrapassar a cláusula de barreira, e ainda assim, os que a respeitarem, terão direito apenas dois minutos por semestre em rede nacional.
O regime financeiro forçado para a campanha, ficará mais intenso, já que a participação dos partidos será ínfima no Fundo de Financiamento Partidário, ou Fundo Especial de Assistência aos Partidos Políticos. O Fundo de Financiamento Partidário, constituído basicamente de arrecadação tributária, distribui fundos entre as legendas de forma equivalente. Após a próxima eleição, os partidos que extrapolarem a cláusula da barreira, além de não conseguirem participação parlamentar, não terão participação no fundo de financiamento partidário e nem acesso ao rádio e à televisão para expor seu programa e suas candidaturas em eleições futuras.
Embora esse mecanismo possa reduzir e melhorar significativamente a estrutura partidária do país, existe uma polêmica em relação à composição desta cláusula. Há quem diga que este dispositivo é injusto e que não reduzirá o quadro partidário nacional, já que beneficia somente os quatro maiores partidos do país (PMDB, PT, PSDB e PFL). Dizem que a atuação partidária em causa própria e a corrupção também se manifestam através de parlamentares dos grandes partidos - um fato indiscutível, que domina o noticiário nacional há aproximadamente um ano e meio.
Os partidos de atitudes explicitamente ideológicas, como o PSTU - Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSOL - Partido Socialismo e Liberdade, além do PC do B - Partido Comunista do Brasil, que se destaca historicamente, irão recorrer à cláusula de barreira, na tentativa de manter seu sistema de idéias e sua tradição. Enquanto isso, a maioria dos partidos acata a nova decisão estrutural, não vendo possibilidades de escapar a ela, podendo associar-se aos partidos maiores e ceder a sua existência oficial após as eleições de outubro.


(Selecionado para o concurso: Jornalistas do futuro - 2006 - Categoria: Reportagem)

Impasses do jornalismo contemporâneo

Bem, pra começar a escrever como jornalista é preciso esclarecer alguns pontos iniciais. No primeiro semestre, somos aprendizes de “foca”, risonhos tentando equilibrar a bola no focinho. Geralmente, as disciplinas introdutórias se resumem a contar a trajetória do jornalismo ou, simplesmente, definir conceitos. O que aprendemos é muito superficial, mas já notamos algo de suma importância: a tal imparcialidade, aquela tão citada, divulgada e apregoada imparcialidade NÃO EXISTE!
Só com essa frase, já se desbanca o senso comum. Candidatos a jornalistas suspiram e se perguntam, mas como? E agora? Parece que tudo aquilo em que se acreditava, tudo o que idealizávamos da profissão desejada era uma mentira. E não deixa de ser... Mas vamos com calma que o santo é de barro!
A imparcialidade não existe porque nada é imparcial. Do momento em que acordamos, abrimos os olhos, andamos e traçamos nossa rotina, fazemos nossas escolhas. Quando escolhemos algo, deixamos a imparcialidade utópica em segundo plano.
O que nós todos, como seres humanos, podemos fazer é ser pouco parciais. A antropologia, estudo da cultura do homem, propõe justamente isso: examinar a lógica para a construção da cultura humana sem interferências, sem questionamentos, apenas respeitando. Isso para o ser humano é realmente difícil. Respeitar outra cultura sem distinção de superioridade ou inferioridade é quase impossível. Por isso é importante, também para o jornalista, estudar antropologia, sociologia, teoria (e tantas mais “ias”); para saber relatar sem se envolver, apenas descrevendo.
Ainda assim, na descrição dos fatos, é necessário cuidar para que não se oportunize apenas uma interpretação. O importante é trazer uma leitura crítica para que quem a receba forme sua própria opinião. Para isso, é necessário “cruzar dados”, ou seja, ouvir diversos posicionamentos sobre determinada questão.
O próprio conceito de notícia estabelece parcialidade. Quando buscamos algo diferente do cotidiano, a notícia propriamente dita, estamos abrindo mão de outros fatos considerados menos importantes, portanto, sendo “parcialmente parciais”, (se é que assim pode ser classificado).Você pode estar se perguntando, por que ela está falando tudo isso? Aonde ela quer chegar?
Em dezembro deste ano será implantada a TV Brasil, a nova TV pública brasileira. É, mais uma televisão no Brasil... O que iremos assistir agora? Houve entre os dias 22 e 24 de agosto um workshop de programação para esta TV, do qual o Jornal ATarde participou. Para este veículo, o workshop foi um evento importante para reforçar a “liberdade de imprensa”.
Liberdade de imprensa? Acho que consegui chegar onde queria. Afinal, o que é liberdade de imprensa? É escrever e veicular o que der na telha? É editar o discurso de uma personalidade para o que for conveniente? Acho que muitos dos meus colegas se perguntam até hoje. Acho que alguns, inclusive, acreditam piamente em tudo o que está “escrito” no rótulo da comunicação social.
A palavra liberdade por si só declara onipotência. Mas não é bem assim. Quando nos propomos a lidar com a informação, com o dom da palavra pública, assumimos uma responsabilidade gigantesca. Por isso é tão importante deixar tudo bastante claro para que não restem dúvidas. E por isso, também, é importante que o público tenha discernimento crítico para contextualizar, avaliar e interpretar aquilo que lê, vê ou ouve nos meios de comunicação. A vida não é tão “mastigada”, meus caros!
Finalizo com incógnitas a mim e a vocês: serei eu capaz de bem atingir? Serão vocês capazes de serem bem atingidos? Afinal, como vocês estão se formando e informando?


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

Democratização dos meios de comunicação

5 de outubro: lançamento da campanha por democratização dos meios de comunicação

Tudo bem, eu sei que o dia já passou, mas vale ressaltar a importância deste que, claro, foi um dia pouco relevante para quem só tem acesso à informação pela televisão, mas que não deve ser desconsiderado e eu vou explicar por que. Bem, no dia 5 de outubro venceu o prazo das concessões públicas de várias emissoras privadas de 28 emissoras de televisão e 153 de rádio, entre elas cinco emissoras da Rede Globo, TV Record, Bandeirantes e SBT.
A concessão pública é a permissão para que um meio de comunicação efetue a transferência da execução dos serviços públicos à iniciativa privada, indicando que é notadamente um dos instrumentos para a parceria público-privada. A promulgação da Lei de Concessões vem exigindo sistemático estudo sobre o assunto.
A Coordenação dos Movimentos Sociais, que reúne as principais entidades populares e sindicais do país, decidiu aproveitar o simbolismo desta data para realizar manifestações em todo o país contra as ilegalidades existentes no processo de concessão e renovação das outorgas de televisão no Brasil.
Apenas para contextualizá-los na situação jurídica em relação às concessões, na Constituição de 1988, a concessão pública de TV tem validade de 15 anos. Para que esta seja renovada, o governo precisa encaminhar pedido ao Senado, que pode aprová-lo apenas com 3/5 dos votos dos senadores. Apesar da legislação, o que vigora no Brasil é a lei do maior interesse. Os empresários reinam autônomos nessa decisão e os interesses privados imperam unanimemente.
Além disso tudo, não há participação da sociedade, aliás, não há interesse em que esta sociedade participe, e essas concessões acontecem sem respeito a critérios públicos. Claro, se o que vigora é o interesse da indústria cultural, em que o indivíduo, apesar de racional, não pensa como quer, apesar de achar que é independente. Os processos são lentos, pouco transparentes e não existe qualquer fiscalização por parte do poder público, nem nunca existiu, para sermos mais precisos.
O funcionamento dessas emissoras ocorre há mais de 20 anos com as concessões vencidas, o que prova ainda mais a ineficiência da lei e do conhecimento popular. Confesso que se não estivesse em contato direto com o ramo jornalístico, também não teria conhecimento à respeito.
Venho por meio desta comprovar que, para sermos realmente integrados ao conhecimento desvinculado de interesses políticos, é preciso que busquemos as entrelinhas, nos informar com o que se pode, além do que está tão acessível. Informação não está apenas no “Jornal Nacional” nem no “Jornal da Globo”, a informação é, fazendo um trocadilho cretino, Global, no sentido irrestrito da palavra.
Vivemos quase um feudo midiático, sendo bastante extremista, quase um imperialismo dos meios de comunicação. Quem não percebe que quem dita as regras na política, economia e em todas as questões sociais, é a Rede Globo de Televisão? Ou você é daqueles que pensa que tudo o que é importante no mundo passa nas telinhas do “plim-plim”?
Só para provocar, talvez nós estejamos mesmo merecendo o país que temos, pois já não há (ou jamais houve) compromisso ético-moral com a informação, talvez os brasileiros estejam conformados demais com o que tem e só quer mudar algumas coisas básicas, como, por exemplo, o final da novela “Paraíso Tropical”. Afinal de contas, o Brasil fica em crise quando o assassino da novela já se tornou um “ídolo nacional”.


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

2 DE SETEMBRO

* 2 de setembro *

* Nasceu uma vida,
uma bela vida,
tão grandiosa e imensa,
tão radiante e insuperável

Nasceu um homem,
de olhar indiscreto, meio moleque e até mesmo louco
Nasceu aquele que um dia,
viria a ser a alegria, a honestidade e alguém assim, tão inexplicável.

E neste dia,
as luzes tornaram-se mais vivas,
o céu mais azul e a vida mais límpida

E neste dia,
a natureza cuidou desta vida
que tão fulgaz, tão ferozmente viva,
iluminou e ilumina tudo ao seu redor,
tudo o que toca vira ouro
pois a pureza da alma contagia, irradia, salva,
incendeia de verdade e, de verdade, traz magia...

E este olhar tão indiscreto, meio moleque e até mesmo louco,
E esta personalidade inquestionável
de caráter sublime, confiança tão segura,
esta criatura, multifaces de alegria,
criatura de nome robusto, já marcado na história,
e que agora constrói a sua maneira de viver
E na anarquia da tua existência
marca lindamente, agora a sua história

Tantos elogios num elogio só
mais um adjetivo para os insuperáveis,
mais uma palavra para o dicionário da vida,
mais um adjetivo à língua portuguesa
SÓCRATES, eternamente SÓCRATES! *

CULTURA BAIANA (?)

Artigo:

Cultura baiana: motivo de desaprovação?

O baiano é culturalmente plural, cheio de misturas, ritmos e crenças. Possui uma infinidade de manifestações culturais singulares, com grande teor artístico e alta qualidade. O cinema, o teatro, seus atores e diretores, os artistas plásticos, suas obras... Por mês acontecem aproximadamente 200 apresentações culturais registradas pela Fundação Cultural do Estado, que vão do teatro à exposições fotográficas.
Porém, se formos contabilizar o público que estas apresentações alcançam, vamos, certamente, encontrar um número muito limitado. Não encontraremos justificativa mais aceitável para este caso do que o fato de que o baiano não se interessa o suficiente pela arte baiana, pela cultura construída por nós. Sim, porque se formos analisar o número de público atingido por um filme norte-americano, com certeza acharemos uma quantidade significativa. Até mesmo de um filme nacional feito pelos Estados do Sul e Sudeste, são melhor aceitos pelo público baiano, que, muitas vezes, nem chega a saber da existência de uma tradição do cinema baiano, ou conhecer nomes como Glauber Rocha ou Edgard Navarro.
Atores, cantores, diretores, bailarinos, no geral, os artistas baianos para serem reconhecidos pelo seu trabalho, precisam sair da Bahia, precisam aparecer nas telas do “Plim-plim”. Senão, nadam, nadam e morrem aqui na Bahia, como anônimos, eternamente. Muitas vezes, a qualidade dos artistas baianos é superior, mas o fato de serem baianos os transforma. Falando da Globo e de suas novelas e filmes, excluindo a atual ascensão de atores como Lázaro Ramos e Wagner Moura, antes o baiano ou era empregado, ou da família do empregado, ou o turista, mas era sempre dotado do estereótipo do “preguiçoso”.
Lázaro e Wagner são ótimos exemplos de que para se fazer sucesso e ter o devido reconhecimento pelo seu trabalho, é preciso passar por um processo de “sudestização”, afinal de contas, eles perderam o sotaque, o simples reconhecimento da sua origem para enfrentar seus últimos personagens. Quem não é baiano, quando interpreta um personagem da Bahia, puxa um “meu rei” “lascado”, ou então, uma fala arrastada nos “tês” e nos “és”, que nem é típica do soteropolitano (que tenta, por tudo, ser “sudestizado”).
Por isso mesmo que o baiano só consegue reconhecer o que vem de fora, porque vê o estereótipo. A sua arte só vale alguma coisa quando está lá, na tela da “tevê” e não “ao vivo e à cores”. Muitas pessoas “torcem a boca” para assistir a uma apresentação gratuita do cantor baiano Gerônimo, mas paga oitenta reais para show do cantor carioca Seu Jorge.
É difícil pro baiano reconhecer o trabalho do próprio baiano, também, é importante ressaltar, por causa da mídia. Esta tem como função transformar o Brasil em Rio e São Paulo, e por isso, os baianos não querem ser baianos. A Bahia só tem axé e Carnaval, e por isso muita gente boa que tenta fazer algo diferente disso é tida como alternativa, por ser diferente do padrão. Citando um trecho da música de Rita Lee e Zélia Duncan: “nem toda a feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda!”, assim como nem só de Carnaval vive a Bahia!


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

O NEGRO NAS NOVELAS

O negro nas telenovelas brasileiras


O documentário A negação do Brasil – O negro na Telenovela retrata os estereótipos que os atores negros representam nas telenovelas. A cultura brasileira é marcada por uma identidade múltipla, uma mescla de culturas, assim como, de acordo com a teoria culturológica, são todos os povos, já que ninguém é desprovido de cultura.
Nas novelas brasileiras, os negros interpretam papéis limitados e geralmente seus personagens são subordinados. Escravos, capatazes, a “mãe preta” da literatura brasileira e a “nanny” do cinema norte-americano, eram os papéis dados às atrizes negras gordas, suas personagens eram sempre bem humoradas e protetoras; empregadas domésticas (as que participam da vida da casa na qual trabalham, são em sua maioria de personalidade forte, palpiteiras), o fiel guarda-costas do patrão, também mostrando que a relação entre o branco e o negro é sempre de amor, dedicação e submissão do negro para com o branco.
Quando a televisão expõe determinado estereótipo acerca dos negros, faz com que uma infinidade de pessoas pense que estes estereótipos condigam com a realidade e isto influencia no modo com que as pessoas se relacionam umas com as outras. Isto gera uma série de conseqüências, devido à grande disseminação promovida pela mídia através das novelas.
O documentário mostra que a nossa diversidade racial e cultural transforma-se, nas telenovelas, no paradoxo de um Brasil branco. A pesquisa mostra de forma incisiva que o lugar do negro nas tramas exibidas na televisão não mudou e que continua a se reproduzir no século XXI. Na cena da novela A Escrava Isaura, por exemplo, quando o personagem Álvaro liberta os escravos de sua fazenda, os escravos colhem os louros de um ato de bondade do senhor branco. A partir da novela, Joel Zito discute o papel do negro e mostra que a mídia reforça a identidade negativa. O documentarista reavalia os estereótipos que influenciam o comportamento da sociedade.
A telenovela faz parte da cultura de massa e passa aspectos e idéias a partir das suas cenas e da sua história. Mesmo com todas estas características, a telenovela busca reafirmar a democracia racial. O fator que afasta o negro das novelas é o mesmo que também afasta o pobre: isto apresentaria um mundo que incomodaria o público da classe média. Talvez tenha sido por isso que a mescla cultural tenha se apresentado nas novelas de forma tão equivocada, já que, com os estereótipos, era necessário que o negro “se mantivesse em seu lugar”, sua posição inferior.
Em novelas, o negro mais bem posicionado, de acordo com o documentário, foi o personagem Otávio, na novela Gaivotas. Porém, o personagem não teve nenhuma função na trama, além de ser amigo fiel do seu patrão e ser constantemente humilhado por sua namorada. Apesar de apontar os preconceitos, o autor da novela afirmou os assédios da preconceituosa empregada Lúcia e, no final, só restou a Otávio ficar com ela.
Outro ponto relevante no documentário é a declaração do ator e cantor Toni Tornado. O personagem de Tornado em Roque Santeiro chamava-se Rodézio, e trabalhava para a Viúva Porcina, interpretada por Regina Duarte. Ele construiu uma relação íntima de carinho com Porcina, e enquanto todos a odiavam, ele permaneceu firme ao seu lado. Tudo indicava que ambos iam ficar juntos no término da novela, mas isto não ocorreu e nunca foi divulgado até a apresentação do documentário.
Há, ainda, a declaração do diretor Walter Avancini sobre a novela Gabriela, da Rede Globo, em que afirma com naturalidade: “não havia atrizes negras preparadas para o papel. Se eu colocasse uma negra para interpretar Gabriela, naquelas condições, seria a reafirmação de que o negro não tem talento.”.
A mídia, neste caso, tem papel fundamental na formação identitária do negro no Brasil, já que com a disseminação das novelas e, consequentemente, a disseminação desses estereótipos, esta denotação faz com que haja conseqüências destas representações nos processos de construção da identidade brasileira.
Isto reafirma a importância dos veículos de comunicação de massa para a formação da cultura de massa, principal estudo da teoria culturológica. Para esta teoria, a cultura de massa, antigamente conhecida como baixa cultura, por Adorno, a relação é estabelecida entre o consumidor e o objeto de consumo, não importando o efeito gerado. O imaginário do consumidor se interpõe entre o sujeito e o produto, determinando se o objeto de consumo é ou não significativo para ele. Agora, o consumo do produto pode ou não esvaziar, há uma relação de consumo consciente, já que o que irá determinar o esvaziamento é o modo como o produto será consumido.
A cultura de massa, agora, forma um sistema de culturas, constituindo-se como um conjunto de símbolos, valores, mitos e imagens. Na sociedade contemporânea, a cultura é formada pela hibridização de culturas, assumindo realidades policulturais, e a teoria culturológica estuda, justamente, estes pontos de conexão entre as diversas culturas.


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

LITERATURA BAIANA: JORGE DE SOUZA ARAUJO

Perfil:

Jorge Araujo: uma literatura da Bahia que poucos lêem

Certo dia, ele estava sentado num restaurante no Rio de Janeiro comigo e mais duas de suas filhas, seu genro e seu neto Gabriel. Havia um rapaz sentado numa mesa em frente à sua e o encarava desde o momento em que ele chegou ao local. Pedimos o almoço, a sobremesa, o cafezinho e o rapaz continuava o olhando fixamente. Ele já estava incomodado com aquela situação e não sabia o porquê daquele jovem o olhar daquela maneira. Pagou a conta insatisfeito com o que ocorria e, num gesto súbito, desviou do caminho da saída do restaurante e encaminhou-se para a mesa do tal rapaz. Parou diante dele, pôs as mãos sobre a mesa e disse: - Eu não sou o Jorge Aragão!
De fato, ele não é o Jorge Aragão, é outro Jorge: Jorge de Souza Araujo. Os dois “Jorges” são, realmente, muito parecidos, mas este, o Araujo, é um escritor baiano de muito prestígio por todo o Estado, porém, com sucesso mais evidente no sul e no recôncavo da Bahia. Nasceu na cidade de Baixa Grande, em 7 de janeiro de 1947. Fez curso primário em sua cidade natal e transferiu-se em fins de 1960 para Itabuna, onde concluiu o ginasial. Logo após, mudou-se para Ilhéus e depois Salvador, onde finalizou o colegial. Licenciou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, em 1972, unidade que atualmente é integrada à Universidade Estadual Santa Cruz.
O Jorge Aragão da literatura baiana tornou-se mestre em 1980 e doutor em 1988 pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defendendo a dissertação “O idioma político afro-nordestino de Jorge de Lima” e a tese “Perfil do leitor colonial”, respectivamente. Militou em teatro, rádio e jornalismo impresso, tendo participado da equipe inaugural do jornal Tribuna da Bahia. Foi repórter do Jornal da Bahia, em 1968, e Luta Democrática, em 1976.
Fez diversas críticas literárias para jornais, revistas e outras publicações. Atualmente é assíduo colaborador do suplemento A Tarde Cultural, e escreve crônicas semanalmente para o jornal Agora, local da cidade de Ilhéus, onde reside. Sua vida literária é recheada de antologias de conto, poesia e ensaio; livros de autoria própria, conferências que ministra por todo o país, em cursos, oficinas, palestras e congressos.
Jorge Araujo foi vencedor de muitos prêmios e concursos, ganhando destaque prêmios pela Academia Baiana de Letras, Prêmio Jorge Amado e Prêmio Anchieta. Apesar dos infortúnios, como o próprio afirma, Jorge ainda se considera professor, tendo começado no ensino ginasial e médio e concluído como professor universitário, às Universidades Estaduais Santa Cruz, de Feira de Santana e às Federais do Rio de Janeiro e da Bahia, por onde se aposentou.
Atualmente, ministra cursos de pós-graduação nas universidades estaduais da Bahia. Um de seus livros foi incluído na lista de leitura obrigatória da Universidade Santa Cruz, Os Becos do Homem. Jorge Araujo (sem acento) é desquitado. Possui quatro filhas, duas do seu casamento e as outras duas de mães diferentes e três netos das duas filhas mais velhas. Suas filhas são envolvidas com letras ou comunicação, menos a mais jovem, que tem apenas 13 anos. Jorge Araujo é muito simpático e extrovertido.
Jorge é um grande admirador de cultura, pois em sua casa coleciona uma enorme quantidade de discos de vinil, CDs, DVDs, livros e fitas K7. Com um vocabulário extenso, não demonstra prepotência, pois sabe conversar com qualquer pessoa sem que o outro se sinta excluído. Jorge é ovacionado onde mora. Em todos os cantos da cidade, é recebido com grande festa. Os habitantes de Ilhéus afirmam ter orgulho por conhecerem um letrado tão simples e ao mesmo tempo genial.
“E ainda por cima é baiano e mora entre nós”, dizem. Jorge gosta de viver sozinho. Sua casa tem piscina e banheira de hidromassagem. É tão prestigiado por ser um professor “completo”. Os alunos afirmam que ninguém tem coragem de interromper sua aula, não por ele ser arrogante, mas por ser tão brilhante que ninguém tem coragem de atrapalhar sua genialidade. Jorge foi militante do Partido Comunista Brasileiro, chegou a ser preso, inclusive, mas logo liberado.
Lutou direta e indiretamente pelo fim da ditadura no Brasil, através de sua escrita, sua maior arma, acredita ele, até hoje. Anos mais tarde, em 2004, chegou, a se candidatar a vice-prefeito de Ilhéus para que o legado do seu partido não fosse abandonado. Foi anunciado como vencedor, ao lado do candidato a prefeito Rui, pela aliança entre o Partido dos Trabalhadores, PT, e o Partido Comunista do Brasil, PCdoB, ao qual Jorge é filiado.
Na realidade, o candidato vencedor teve a candidatura impugnada, por ocorrer suspeita de corrupção, assumindo, mesmo que por apenas alguns segundos, o segundo colocado, candidato de Jorge. Depois, o tal vencedor assumiu de verdade. Mas ele não gosta de se envolver com política. Tanto que se candidatou achando não obter sucesso nas urnas. Quando recebeu o resultado, levou um susto imenso.
Jorge assume não ser um pai tão presente. Acredita que isso se deva ao mundo literário ao qual está mergulhado e que lhe toma muito tempo. Mas isto o fez sempre incentivar suas filhas a estudar e a ler bastante, o que as motivou a engrenar ou na carreira das letras, ou na carreira da comunicação. Quando está “em processo de produção”, não gosta de ser incomodado. Tanto que chega a passar dias em seu escritório, não desce nem para comer nem para dormir: tudo lhe chega às mãos. Neste momento, ele encontra-se neste período, tanto que nem sabe que sua última neta nasceu. O mais engraçado desta história é que sua filha mais velha, Izidora, mãe de sua última neta, está neste momento morando na sua casa.
Jorge ainda acredita que os baianos consigam gostar da leitura. Quando perguntado sobre cultura alternativa, ele se auto definiu como membro desta cultura, já que nem todos acessam, apesar de terem acesso. Sua literatura é universal, é por isso que ele continua a escrever, é por isso que ele segue acreditando. Só gostaria de ser mais reconhecido, não pelos prêmios que recebe, mas pela quantidade de gente que ele atinge.E, com orgulho digo: Jorge de Souza Araujo também é meu pai!


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

A negação do Brasil

O documentário A negação do Brasil – O negro na Telenovela, retrata os estereótipos que os atores negros representam nas telenovelas. A cultura brasileira é marcada por uma identidade múltipla, uma mescla de culturas, assim como, de acordo com a teoria culturológica, são todos os povos, já que ninguém é desprovido de cultura. Quando a televisão expõe determinado estereótipo acerca dos negros, faz com que uma infinidade de pessoas pense que estes estereótipos condigam com a realidade e isto influencia no modo com que as pessoas se relacionam umas com as outras. Isto gera uma série de conseqüências, devido à grande disseminação promovida pela mídia através das novelas. A mídia, neste caso, tem papel fundamental na formação identitária do negro no Brasil, já que com a disseminação das novelas e, consequentemente, a disseminação desses estereótipos, esta denotação faz com que haja conseqüências destas representações nos processos de construção da identidade brasileira. O documentário mostra que a nossa diversidade racial e cultural transforma-se, nas telenovelas, no paradoxo de um Brasil branco. A pesquisa mostra de forma incisiva que o lugar do negro nas tramas exibidas na televisão não mudou e que continua a se reproduzir no século XXI. "Ao discutir a imagem do negro na mídia a partir da novela, que reforça a identidade negativa e destrói sua auto-estima, Joel Zito abraça uma das frentes de combate para mudar este quadro, reavaliando os estereótipos que influenciam o comportamento da sociedade.", disse o Prof. Kabengele Munamba. O próprio autor do documentário afirma que "o enfoque racial da televisão brasileira é resultado da incorporação do mito da democracia racial brasileira, da ideologia do branqueamento e do desejo de euro-norte-americanização de suas elites". O documentário mostra os estereótipos aos quais os atores negros foram submetidos. A “mãe preta” da literatura brasileira e a “nanny” do cinema norte-americano, eram os papéis dados às atrizes negras gordas. Suas personagens eram sempre bem humoradas e protetoras. Além dessas personagens, atores negros sempre viveram papéis de escravos, jagunços, empregadas domésticas e fiéis guarda-costas do patrão.


(Elias Bastos Araujo - 2007)

ROCK IN RIO VERMELHO

Rock in Rio Vermelho
Aos trancos e barrancos, o rock soteropolitano sobrevive neste bairro

Por Elisa Araujo

Os espaços para o rock em Salvador são escassos, mas eles estão, em sua maioria, no bairro do Rio Vermelho. Idearium Bar, Nhô Caldos, Blue House, Boate Boomerangue são exemplos de locais onde o rock tem seu lugar. Quem não se lembra, também, do Café Calypso, local que trouxe grandes sucessos e deixou boas lembranças, mas que hoje não funciona mais.
Nestes ambientes, acontecem shows de rock desde o heavy metal ao rock alternativo. Porém, os locais são pequenos, sem boa ventilação e grande estrutura para as bandas se apresentarem. Raros são os espaços dedicados 100% ao rock, pois não há interesse em financiar este estilo em Salvador, onde o ritmo samba-reggae, conhecido com axé, trás mais retorno financeiro.
Os espaços de rock no Rio Vermelho são bem próximos e bem parecidos em sua estrutura. São casas de pequenas, em locais não muito visíveis. O Idearium Bar fica próximo ao largo de Sant’Ana, onde encontra-se famoso acarajé da Dinha. Já foi palco de shows como o da banda paulista NxZero e a grande “bola da vez”, a banda baiana Canto dos Malditos na Terra do Nunca, além de outras. Porém, o espaço físico não comporta uma grande quantidade de pessoas, além de ser pouco ventilado. Geralmente, no Idearium ocorrem shows de rock heavy metal e hard core.
Já a Blue House é um local onde ocorrem, geralmente, shows de hard core e punk rock. Mas temos o exemplo da banda Incárcere, que é uma banda com influências do movimento grunge de Seattle e que também já fez apresentações neste local. A estrutura é bem semelhante ao do Idearium: pequeno, com pouca ventilação e “escondido”. Hoje em dia, os shows neste espaço acontecem com menos freqüência que antigamente. Tanto a Blue House quanto todos os outros espaços acima citados funcionam, também, como casas de eventos, como celebrações de debutantes, aniversários e outros.
ESPAÇOS CLÁSSICOS - O Café Calypso já foi considerado para votação no Prêmio Dynamite, em 2003 e 2004, como melhor casa noturna, concorrendo com espaços semelhantes em todo o Brasil. Em 2006, o Calypso foi fechado pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom). O espaço era considerado de alto risco para quem freqüentava, por falta de estrutura física e, além disso, os visinhos alegavam uso de drogas ilícitas pelos seus freqüentadores. O Café Calypso era uma espécie de plataforma de lançamentos para as bandas baianas. Lá tocaram bandas como Pitty, Nancyta e Os Grazzers e muitas outras, antes de partir para outros Estados. Além disso, uma programação eclética, mas sempre voltada para o rock, acontecia praticamente todos os dias da semana, com bandas cover ou ainda artistas de menor projeção. Apesar de tudo, o Calypso traz boas recordações e deixa imensa saudade para quem encontrava ali um abrigo do rock baiano.
A Boate Boomerangue e o Nhô Caldos são espaços onde também acontecem shows de rock. A Boomerangue funciona como boate, mas lá ocorreram os últimos shows da Attrito Produções. O projeto da Attrito é voltado a prestigiar o rock e, portanto, sem restrições as suas vertentes. O Nhô Caldos é um bar onde acontecem shows do blues ao samba. É considerado “um reduto de roqueiros órfãos de um bom bar, boêmios violeiros, modernos e quadrados, pagodeiros bem intencionados e toda a sorte de galmourosos marginais desta terra de Soterópolis.”, disse Hebert Valois, em texto para o site da Nhô Caldos.
ENVOLVIDOS COM O ROCK - Em relação aos espaços, os produtores culturais Jarbas Meira, da Jarbas Produções; e Armando Brasil, da Produtora Pequena Notável, asseguram que é necessário gostar de rock para investir, pois neste negócio, “se gasta mais do que lucra”, como disse Armando Brasil. “A divulgação e o público são insuficientes, e achar locais que trabalhem dessa maneira é quase impossível”, afirma Jarbas.
Os fãs, por sua vez, quando questionados a respeito da estrutura para o rock em Salvador reclamam: “todos os espaços são muito abafados. A Idearium e a Blue House parecem um ‘ovo’, a Boomerangue é mais elitizada, cobra os ingressos mais caros e nem faz shows de rock constantemente.”, diz Laís Souza, admiradora e cantora de rock.
Para muitos fãs, não há outra alternativa. “Quem gosta de rock, vai aos shows, onde quer que eles estejam”, disse Rafael Ribeiro, baixista da banda The Idiots e freqüentador de shows rock.
As bandas encontram ainda mais dificuldades. A banda Elipê, por exemplo, no início da carreira, “pagava pra tocar”. “A gente alugava o espaço, se virava pra arrumar som, transportar os instrumentos e ainda ficava na bilheteria de alguns espaços. Eles ajudam sim, cedendo o ambiente para o rock, mas não dão tantas facilidades.”, disse Mateus Lopes, guitarrista da banda.
Além disso, as bandas afirmam que elas são “restringidas a duas ou três casas de show, há mais bandas de rock boas do que locais para se apresentarem”, como disse Nancyta, vocalista da banda Nancyta e os Grazzers, no documentário Se liga Rapaz para a TV FTC.


(Elias Bastos Araujo - 2007)

CINEMA BAIANO: A IMAGEM QUE NINGUÉM VÊ

Cinema baiano: a imagem que ninguém vê
Apesar de oferecer bons filmes e diretores, ainda enfrenta dificuldades

Por Elisa Bastos Araujo

Mesmo com os recentes destaques de filmes como “Ó Pai Ó”, dirigido por Monique Gardenberg, “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado e “Eu me lembro”, de Edgard Navarro, e dos prêmios que estes conquistaram, o cinema baiano ainda não atingiu o grande público local. Boa parte da população desconhece as produções baianas e acredita que a cinematografia na Bahia tenha se iniciado com estes últimos filmes. Os cineastas baianos, há muito tempo, sofrem com as dificuldades encontradas para se fazer filmes na Bahia, pois não há divulgação. Alguns dos filmes baianos participam de festivais e premiações, mas muitos deles não alcançam sucesso nas bilheterias.
Alguns recursos poderiam contribuir para a visibilidade do cinema baiano. Existe na capital baiana um curso de cinema da Faculdade de Tecnologia e Ciências, (FTC). Além disso, a Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia, UFBA, discute a implantação de mais uma escola de cinema e audiovisual, mostrando que há, senão mercado, interesse em fomentá-lo. Houve também, o seminário internacional de cinema, ocorrido entre os dias 9 e 14 de julho deste ano, que debateu a situação do cinema baiano, apontando soluções prováveis. Há, também, uma jornada de cinema da Bahia, desde janeiro de 1972. Existe, ainda, apoio da Fundação Cultural, através da Dimas, Diretoria de Artes Visuais e Multimeios e da Associação Baiana de Cinema e Vídeo, ABCV.
No entanto, ainda há dificuldades em se fazer cinema na Bahia. Segundo Sandro Santana, produtor cultural de Salvador, apenas 8% da população baiana têm condições de ir ao cinema, o que dificulta ainda mais a produção de filmes na Bahia, pois há falta de público pagante. Há carência, também, de mercado publicitário.
A atividade cinematográfica baiana floresceu entre os anos de 1958 e 1962, com os cineastas Rodrigo Pires e Glauber Rocha, sem nunca obterem grande retorno. Após a ida de Glauber e Rodrigo para o Rio, o que pode ser denominado “ciclo” baiano acabou e, depois disso só voltou a entrar em cartaz na década de 90, com 3 histórias da Bahia.
QUEM FAZ CINEMA NA BAHIA - “O cenário do cinema baiano é exatamente igual ao cenário brasileiro: devagar quase parando. Com alguns momentos de luz, um vai e vem, altos e baixos, não há continuidade. Por isso há uma falsa impressão de retomada. Fazer só não adianta, o povo precisa ir ver.”, disse a atriz Luciana Rigueira, vencedora de prêmios de melhor atriz em Gramado e Brasília, em 1996 e em 2000, respectivamente. Ela sintetiza o que a maioria dos atores, diretores, roteiristas e estudantes de cinema na Bahia acreditam.
O ator Aldri Anunciação, por exemplo, já fez muitas produções baianas. Porém, só atingiu alguma visibilidade com filmes produzidos pela Globo, como “Muito gelo e dois dedos d’água”, “A Máquina” e “Mais uma vez amor”. Ainda assim, Aldri só conseguiu papéis secundários. Ele afirma que no Brasil, para viver da profissão de ator, “ou você é global ou você é global. Eu tive uma carreira cinematográfica muito boa, mas não houve continuidade.”.
Segundo o produtor Sandro Santana, “é preciso pensar em estratégias de distribuição e exibição que não se restrinjam a um dia de sonho”.


(Elias Bastos Araujo - 2007)

COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL

COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL

A comunicação empresarial é um ramo da comunicação arquitetado pelas empresas como uma atividade estratégica para as suas diretorias e presidências. Também chamada de comunicação organizacional, engloba a supervisão da assessoria de imprensa, o planejamento, implementação e condução das ações de comunicação interna com o público externo, no âmbito corporativo, assim como as atividades e competências do relações públicas, jornalista, publicitário e marketerio, etc.
Trata, também, da imagem da empresa, zelando pela sua marca, não do seu produto. Ou seja, a comunicação empresarial compreende um conjunto complexo de atividades, ações, estratégias, produtos e processos desenvolvidos para reforçar a imagem de uma empresa ou entidade perante o seu público alvo ou à opinião pública.
Assume, nos últimos anos, uma postura mais complexa, devido à pluralidade de seus públicos, a alta concorrência, a segmentação da mídia e a introdução acelerada das novas tecnologias. A comunicação empresarial se preocupa, basicamente, com o relacionamento entre empresa como um todo com a sociedade e seus interlocutores. A partir de então, os profissionais deste ramo tentam tratar do relacionamento com a sociedade não apenas como clientes, fornecedores, parceiros; mas, principalmente, como membros de uma sociedade, que podem auxiliar ou não na preservação da imagem da empresa.
É, portanto, uma ferramenta estratégica, um suporte de administração para todas as atividades da empresa. Ela é a maior aliada das atividades de marketing e de recursos humanos quando trabalha profissionalmente valores como missão, visão, valor, identidade, parceria, cooperação interpúblico e interempresa, e cidadania empresarial. A comunicação organizacional evoluiu sistematicamente para um prestígio estratégico, primordial para o êxito nos relacionamentos das empresas e instituições com os seus inúmeros públicos alvo.
Segundo o jornalista Francisco Gaudêncio Torquato do Rego, o profissional de comunicação empresarial deve "Gerar consentimento, eis a meta final da comunicação organizacional. Produzir aceitação, por meio de comunicação expressiva-emocional. Este deve ser o objetivo dos profissionais que lidam com comunicação nas empresas". Os profissionais que atuam nessa área são, essencialmente, jornalistas, relações públicas e publicitários, mas, no Brasil, nos postos de gerência sênior e de diretoria, outros profissionais podem atuar.
Hoje, este profissional deve, não apenas ter conhecimentos e habilidades nas práticas profissionais, mas também deve ter uma visão abrangente do mercado e do universo dos negócios; ser além de um executor de tarefas, deve ser um executivo, um gestor, capaz de planejar, estrategicamente, o esforço de comunicação da empresa ou entidade. A comunicação empresarial surge para salientar que os produtos e o profissional não são apenas assessórios.
No Brasil, esta área começa a emergir na década de 1960, com a instauração da Associação Brasileira de Editores de Revistas e Jornais de Empresa, a ABERJE, em 8 de outubro de 1967. A ABERJE é a marca que representa atualmente a Associação Brasileira de Comunicação Empresarial e a Associação Brasileira de Comunicação Organizacional. A ABERJE foi obra de um grupo de jornalistas e relações-públicas, executivos de importantes empresas multinacionais e brasileiras, sediadas basicamente em São Paulo. Este grupo era liderado por Nilo Luchetti, gerente da Pirelli, considerado pai da Comunicação Empresarial Brasileira de relações humanas.
A configuração das empresas e do mercado começa a se modificar a partir da primeira metade dos anos 90, em decorrência das intensas transformações políticas, econômicas e sociais, muitas vezes, num contexto dinâmico, contínuo e contraditório. O universo empresarial começa a sofrer os efeitos da globalização da economia e do crescente estímulo à competitividade, da responsabilidade social e ambiental e eficiência na produção. Com isso, as empresas começam a conviver com as oscilações em diversas situações, obrigando-as a instituir uma maneira sólida e eficaz de agir sobre o papel da comunicação empresarial na instituição.
Além disso, outros fatores contribuíram para essa nova conformação. A mudança na ação do Estado sob a estrutura econômica, o acometimento irreversível da abertura comercial, as privatizações de empresas estatais, a quebra das estruturas de inúmeras atividades econômicas e o crescente número de compras e fusões de empresas nacionais por grupos transnacionais. Ao mesmo tempo, a paulatina integração do país, a abertura comercial, a formação de blocos econômicos e a informatização do mercado, também contribuíram para essa nova realidade.
Em paralelo, o conceito de cidadania torna-se mais presente no cotidiano da população, com a sociedade exigindo das empresas maior transparência e prestação de contas de suas ações. Com tudo isso, as empresas brasileiras se vêem obrigadas a transformar a comunicação empresarial em uma área estratégica de resultados, decorrente da qualidade de seus profissionais.
Este processo macroeconômico condiciona as empresas a uma rápida difusão de novos meios de comunicação, e as forçam a abandonarem o amadorismo e a contar com profissionais especializados em comunicação, capazes de fazer as mediações entre os diferentes públicos. Como instrumento de inteligência empresarial, deve ser coordenada e praticada por especialistas. Ela requer planejamento, pesquisa, espírito crítico, talento, criatividade e inovação. Torna-se inconcebível, principalmente para as instituições públicas, projetar e executar planos, propostas e programas isolados da comunicação institucional, mercadológica, interna e administrativa.
As empresas, então, são obrigadas a criar uma nova ideologia estratégica que privilegie a integração dessas ações comunicacionais para atingir às necessidades dessa sociedade afluente, alcançando a nova estética do mercado comercial. Para atingir a multiplicidade do mercado, as empresas passam a depender, fundamentalmente, da produção múltipla e permanente de informações agregadas a seus produtos, atreladas a ações e serviços de seus gestores. O acirramento da concorrência em escala internacional, também faz com que as empresas encarem a comunicação de forma muito mais abrangente, abrindo canais cada vez mais eficazes.
Atualmente, muitas pessoas, instituições e organizações estão despertando para a necessidade de se consolidar uma maior fundamentação teórica para o exercício da comunicação empresarial. Este profissional precisa criar novas perspectivas e demandas, adquiridas ao longo de estudos e pesquisas, para montar ou atualizar estruturas, redefinir políticas, treinar profissionais e recorrer a assessorias especializadas.
Um dos mais importantes princípios da comunicação empresarial é o de credibilidade frente aos seus diferentes públicos. Quando opera sem eficácia, legalidade e legitimidade profissional, estes valores ficam comprometidos. As crenças, valores e tecnologias relacionadas à comunicação empresarial nos revelam uma atividade extremamente holística.
A comunicação empresarial tem um papel importante na "administração de percepção" e na leitura do ambiente social da instituição. Por isso, a inserção do jornalista e do relações públicas na cultura da organização torna a empresa e seus empregados mais conscientes de sua responsabilidade social. Ela harmoniza as vertentes institucional e mercadológica e está focada nos negócios da empresa, o que não significa que apenas privilegia os lucros e os resultados financeiros. Além disso, contribui para reforçar a ética empresarial e o comprometimento com o exercício da cidadania e da responsabilidade social.
A comunicação empresarial bem esquematizada e conduzida agrega valores às marcas, contribui para a vendagem dos produtos e serviços, além de representar uma vantagem competitiva para as organizações modernas. Por se definir como moderna e estratégica, insere-se, profunda e intensamente no processo de gestão e está afinada com a cultura organizacional.
Em sua definição, a comunicação empresarial caracteriza-se por sua natureza, participativa, analítica, democrática. Definida, desta forma, ela se constitui num tipo ideal (como propunha Max Weber em sua teoria), já que, na prática, ela continua, quase sempre, se ajustando por outras características, menos ilustrativas.
A comunicação empresarial brasileira já atingiu a sua maioridade, mas ainda vive a fase de identificar problemas e começa agora a encaminhar as primeiras soluções para os grandes desafios que a globalização, as novas tecnologias e a concorrência acirrada nos impuseram. Enquanto conceito mais compreensivo, a comunicação empresarial brasileira possui pelo menos 25 anos.
Antes da década de 1970, as atividades de comunicação desenvolvidas pelas empresas e entidades eram fragmentadas. Não havia um departamento ou área que abarcasse todos os esforços de relacionamento da empresa com o público, salvo raras exceções, podendo-se afirmar que esta era uma atividade residual que, muitas vezes, era exercida por profissionais de outras áreas. Ou seja, a comunicação entre empresa e público até aquela época não era relevante. Essa década foi importante pela sua contribuição para as mudanças em direção à implantação de uma cultura da comunicação.
Já a década de 80 foi importante para impulsionar a comunicação empresarial no Brasil. Esta ganhou prestígio diante das organizações e passou a ser considerada como um campo de trabalho profícuo, atraindo profissionais de todas as áreas. O jornalismo empresarial e as atividades ligadas ao relações públicas ganharam vaga e tornaram-se profissionalizantes nesse mercado, comportando os egressos recém-formados e exigindo uma nova postura das organizações.
Atualmente, a comunicação empresarial prepara-se para atingir um novo patamar, constituindo-se por ser um novo elemento indispensável à inteligência empresarial, que usufrua ao máximo das novas condições tecnológicas, suporte a emergência de novas mídias e abarque de forma superior as relações entre as empresas e a sociedade.
“A comunicação eficaz está sendo considerada a principal ferramenta estratégica das relações sociais e profissionais. Esta ferramenta torna-se fundamental para a realização de uma Comunicação Negocial e Empresarial eficaz nas corporações”, disse a professora de Comunicação Empresarial da Faculdade IBTA nos cursos de Gestão, da unidade São Paulo, Maria do Carmo Oliveira Carrasco
O mercado brasileiro e internacional já dispõe de empresas especializadas na realização deste trabalho e, internamente, as empresas ou entidades também experimentam gradativa profissionalização, compreendendo a nova estrutura comunicacional, uma nova área de atuação no mercado.


(Elias Bastos Araujo - 2007)

Sorria, você está sendo filmado!

Sorria, você está sendo filmado!


Após duas horas de documentário, discussões e debates, chego em casa ainda sob o efeito alucinógeno das verdades que teimavam em não querer entrar em minha cabeça. Procuro no dicionário o conceito mais importante do momento para mim: afinal de contas, o que é “jornalismo”? O léxico, instrutor das palavras, me dita: “1-A prática, a vida, a profissão de jornalista. 2-A arte e ciência de dar notícias em revistas, jornais, TV, etc.”. Ainda não convencida, leio o que Ruth Rocha diz sobre “jornalista”. “Pessoa que trabalha em jornal, como redator, repórter, fotógrafo, articulista ou colunista.”. Re-analiso toda a imagem que interpretei pela manhã. É, realmente não é isso que vemos diariamente. Dei uma olhada no site “observatório da imprensa”. Agora, tudo virou uma enorme gozação. Olhei os textos, a lista dos nossos tão renomados “jornalistas”... Gargalhei. Tantos nomes obscuros, tantos escritores sensacionalistas, tanta baboseira forma a nossa “imprensa”. Lembrei das matérias que li durante toda a minha vida. Tentei não calcular que tudo o que eu penso hoje pode não ser fruto de mim mesma, como sempre acreditei. Tentei não crer que a liberdade de expressão, impregnada na nossa fala diária, pode ser uma arma contra nós mesmos. Os monstros do poder são tão imundos... Os donos dos sorrisos “salvadores”, os revolucionários da repressão, os combatentes sujos dos marajás, (não sei se mais ou menos imundos)... É tanta sujeira que nem dá vontade de prosseguir. Do jeito que estou, sigo minha vida, sem precisar usar das mais “comuns” maneiras de atravessar as fronteiras e atingir o monopólio e a riqueza do poder. Até agora, eu não sei até onde eu não consigo ser corrompida e penso que é melhor parar por aqui. O mundo muda tanta gente, não é mesmo? Quem sou eu, réles humana, pra me declarar imutável, eticamente inabalável? Nada do que possa fazer neste instante vai mudar o agora, apenas uma lavagem cerebral intensa, uma descatracalização e “deschipização” dos alienados modernos vai salvar a minha consciência. Prefiro permanecer com a dialética das palavras de chacota e a edição dos erros humanos, não a dialética das palavras de manipulação e a edição dos documentos e imagens da real liberdade. Ainda procuro aquelas informações que realmente informem, que mudem a história, não procuro fofocas e ostentação do poder. Volto à Ruth Rocha, agora procuro a ‘vergonha’. “1-Sentimento que leva as pessoas a não praticarem atos que são ou que julguem ser contrários às normas morais vigentes num grupo social. 2-Timidez, acanhamento. 3-Ato indecoroso.”. Bem, de atos indecorosos, a imprensa está cheia! A vergonha está em falta, senhores e senhoras... Mas a minha revolução já basta, pelo menos pra mim. A vontade ainda não morreu. Cito Olga: “Lutar pelo justo, pelo bom, pelo melhor do mundo”. Se não fosse por “vagabundos” como ela... Não, jornalismo não é uma arma do poder, ou para se instaurar um quarto poder. Não sorria, você está sendo ridiculamente usado, articulado para ser conformado com o que tem, (ou não). Sim, você está sendo manipulado!


(Elias Bastos Araujo - 2007)

ÚLTIMO CANTO

Elis Regina

“Último canto”

“Vou acender uma vela, vou só cantar o meu canto e vou cantar da maneira, a mais singela” (...).

Na terça-feira do dia 19 de janeiro de 1982, morre a maior cantora do Brasil. Elis Regina de Carvalho Costa, 36 anos, foi encontrada morta, trancada em seu quarto, onde havia tomado uma emulsão de cocaína e bebida alcoólica.
Sua morte provocou grande comoção nacional assim que a notícia circulou pela imprensa. Cerca de 25 mil fãs, amigos e parentes prestaram homenagens em seu velório no Teatro Bandeirantes, centro de São Paulo, palco do seu maior show, “Falso Brilhante”.Aproximadamente mil pessoas seguiram o seu cortejo até o cemitério do Morumbi, na tarde do dia 20.
No auge de sua vitalidade, Elis deixou três filhos, uma herança marcada em seus 27 LPs, catorze compactos simples e seis duplos, que lhe renderam em vida 4 milhões de cópias; além de uma das maiores vozes do Brasil, que ecoa até hoje, 25 anos após a sua morte.
O laudo que comprovara a causa de sua morte foi divulgado na quinta-feira, dia 21, cho-
cando a população que até então permanecia com dúvidas e incertezas. A médica que recebeu o seu corpo no Hospital das Clínicas, não pôde atestar uma morte natural e o corpo de Elis foi encaminhado para autópsia pelo Instituto Médico Legal, onde foi confirmado que o agente de sua morte tinha sido realmente, uma intoxicação combinada entre bebida alcoólica e cocaína.
Antes de se veicular essa notícia, houve muita resistência de parentes e amigos da cantora, afirmando que Elis não usava drogas. Tentaram, inclusive, com que fosse evitada a realização da autópsia. Além disso, amigos e familiares de Elis suspeitavam do diagnóstico, já que alegavam manipulação por parte do diretor do IML na época, o legista Harry Shibata, o mesmo que atestou o suicídio de Vladimir Herzog, na época da ditadura. Segundo familiares e amigos da cantora, o Dr. Shibata tem “ressentimento” de Samuel Mac Dowell, namorado de Elis na época, já que este foi um dos advogados da família Herzog e que conseguiu provar a irregularidade na assinatura do laudo de morte de Vladimir. A família afirma que a cantora não usava drogas, mas o próprio médico da família, Álvaro Machado Jr., afirmou mais tarde que o exame foi irrepreensível. Mac Dowell, bem como familiares e amigos, pretendiam preservar a imagem de Elis, principalmente para os filhos.
Elis estava feliz nos dias anteriores, tanto que ninguém imaginaria tal acontecimento. Ela e Mac Dowell planejavam morar juntos. À véspera de sua morte, ela recebeu um grupo de amigos em sua casa, em um clima muito agradável. Por isso, ninguém acredita na possibilidade de Elis ter cometido suicídio.
Não se sabe até hoje o que levou à morte de Elis. Existem incógnitas a respeito de uma possível discussão ao telefone entre Elis e Mac Dowell, que nega essa hipótese. Porém a empregada de Elis diz ter escutado, por volta da meia noite da segunda-feira, Elis encerrar um telefonema com um palavrão. O delegado responsável pelo inquérito, Geraldo Branco de Camargo, disse não encontrar nenhuma contradição nos depoimentos dados à polícia.
Elis Regina, ou como ficou conhecida, “Pimentinha”, deixou pra trás uma carreira belíssima, cheia de inseguranças para subir ao palco, mas cheia de vitalidade quando estava com os pés no tablado; marcada pelas parcerias brilhantes e pela exposição de artistas até então desconhecidos, como Gilberto Gil ou Milton Nascimento. Deixou amigos e fãs eternos, insaciáveis pela sua voz insuperável, de agudos, graves e extensão invejada por muitos artistas.
“Em busca de um sol maior, Elis Regina embarcou num brilhante trem azul, deixando conosco a eternidade de seu canto pelas coisas e pela gente de nossa terra. E uma imensa saudade.”
Sua memória resistirá à situação dramática e não terá o seu valor artístico julgado pelos padrões da sua vida. Só a morte conseguiu para Elis que os caminhos fossem abertos para a julgarem como artista, sem confundir com sua vida pessoal e suas escolhas erráticas.
“Me tomam por quem? Uma imbecil? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde, já estou amarela. Eu sou do contra. Sou Elis Regina de Carvalho Costa, que poucas pessoas vão morrer conhecendo.” Engana-se Elis, você é e continuará sendo por muitas gerações a eterna Pimentinha, a maior cantora do Brasil.


(Elisa Bastos Araujo - 2007)

A MENINA QUE COMIA VENTO

A menina que comia vento


Sentada à beira do abismo, ela sentia o vento soprar-lhe os olhos, tapar-lhe os sonhos e desejos e, ao mesmo tempo, abri-los bem fundo jogando-os ao mundo. A menina gargalhava e de boca escancarada buscava reter todo o vento bom que lhe soprava alegrias. Ela o devorava, e a cada mastigada era uma enorme gargalhada, daquelas bem perceptíveis, daquelas que qualquer pessoa invejaria.
A menina não abria os olhos, apenas sorria, e mastigava o vento, mastigava-o vorazmente, com fome de vivê-lo. O vento trazia-lhe pó de tempo e de passado, seus e dos outros, mas levava embora todo o seu que já não lhe servia mais. Vinha o pó branco, voava o cinza.
Comia o vento tão fugazmente que, às vezes, lhe doía a face, pois o vento também batia. Mas não lhe doía tanto, pois ela gargalhava, e gargalhava alto e forte.
A moça abriu os olhos e viu todo o vento que comia e todo o vento que voava. O vento cortou-lhe os cabelos, os pensamentos e os sonhos... Ah, os sonhos... Cortou-os tanto que os fez reais!
A moça, agora, havia sido lapidada, feito uma pedra pela água, pela terra ou pelo vento. Vento que a menina devorava num golpe só.

CARTAS NÃO ENVIADAS

Hoje a minha sorte disse: “Faça apenas o que o seu coração mandar”. Logo hoje, um dia tão distante de acontecer tudo o que está em minha mente; bem antes de eu viver tudo o que eu sonho apenas com você. A distância está exatamente entre o sonho e o que bem longe será realidade. O meu coração me manda pegar o telefone e te ligar... Mas a razão me impede. A razão me impede de tanta coisa... Mas o que mais vale, o principal impedimento da minha razão é o de te dizer o quanto eu te amo. Maldita sociedade, manipuladora e estúpida, que nos faz cegos, no molda exatamente para sermos o que nunca desejamos. Sociedade que pede honestidade em todas as situações, mas que na hora de abrir o seu coração, se esconde por trás das malditas aparências. Eu sei, esta pode ser uma maneira burra de demonstrar o que sinto pra você, escrevendo uma carta secreta que jamais lerá, mas esta sou eu, uma reles humana socialmente encaixada na tal sociedade, a qual julgo e condeno. Não ache que é minha hipocrisia... Agora tento juntar todas as cartas que lhe fiz, na tentativa que sei ser frustrada de arrumar uma ponta de força de vontade para entregá-las a você, ou achar forças ainda maiores para lê-las. Eu ainda não sei o que é o amor... O que sei é o calafrio que sinto todas as vezes que te abraço ou que te toco, ou quando tento sem sucesso trocar palavras inteligentes com você. Hoje soube do seu sucesso em sua viagem a negócios... Quis te ligar, mas eu nunca te ligo. Quis então mandar-lhe uma mensagem, mas as minhas tentativas não passam de tentativas, sempre. Estou cansada de tentar “tentar”. Quero conseguir! Agora chega! Vou te mandar uma mensagem!

ADEUS

Agora não tenho mais desculpas pra te ver... provavelmente daqui a alguns dias eu e você não mais trocaremos ao menos sorrisos! Você seguirá o seu caminho de luz e eu o meu, que ainda nem sei como vai ser! Talvez nem nos vejamos mais! Queria tanto ter a certeza de que você também me quer assim como eu te quero! Queria tanto ter certeza de tanta coisa! Mas você está por ai... Às vezes penso se sequer desconfia dos meus sentimentos. Às vezes fico tentando encontrar uma fresta de amor em seu olhar, uma fresta de qualquer coisa em você que te ligue a mim. Quero tanto falar com você... Quero saber falar... mais uma vez! Neste exato momento eu não quero nada... a não ser a sua presença permanente. Quero ter a certeza de que não estou inventando mais um amor frustrado!

TUDO

Nem lembrava como era me sentir assim... Parece que você renovou o meu “eu” e conseguiu me transformar em uma criança novamente, daquelas bem traquinas e que nunca sabem o que estão fazendo. Parece que eu descobri uma parte morta de mim, ou que nunca teve a chance de nascer; aquela parte ofuscada pela antecipação da minha maturidade, pela falta de vivência nua da minha adolescência. Só sei que não sou mais eu, e a cada segundo eu gosto muito mais de estar ao seu lado. Passam-se os dias, as horas, os segundos, e eu rezo, rezo para que quando você se sente ao meu lado, me abrace, como das outras centenas de vezes em que nossos corpos dividiram o mesmo espaço. Apaixonei-me pelo seu jeito de sorrir, desconcertado e lascivo, sorriso este que emites a cada conquista ou a cada despedida. Sei também que não quero me ver longe de você, que não quero dividir as minhas manhãs com outra pessoa. Descobri o que sinto, quando, ao te olhar, encontrei também o seu olhar, um olhar que eu procurei por anos e anos desperdiçados com a distância de não te conhecer. Não é nada demais gostar de alguém, não é nada demais. Não nos roubam a vida se não deixamos e não nos afrontam se não nos entregamos, mas nem sempre se entregar chega a ser algo ruim. Gostar, antes de amar, é sentir, unicamente, sempre. Acima de todas as coisas, mesmo que para isso tenhamos que renunciar. Não é nada demais... Sei o que sei porque há pouco descobri, quando fui obrigada a me desprender do meu passado para conquistar meu futuro. O que eu escuto por ai, de poucas pessoas por sinal, é que o nosso futuro está condicionado e que se não nos explicarmos um ao outro, se não formos sinceros diante do que está aos nossos olhos, sofreremos por algo não vivido. Talvez se não vivermos, sempre lembraremos do passado pensando em como seria se tivéssemos sido “nós”. É por isso que eu quero, hoje mais do que nunca. É por isso que eu te quero, tanto! Não sei mesmo porquê. Me meti em confusões, eu sei, senti tudo na hora errada. Não era pra ser assim, não agora. Se fosse de outro jeito... Se tivéssemos nos encontrado num cinema, num elevador, numa rua; se nos esbarrássemos e tivéssemos que pedir desculpas... Se eu não tivesse confundido tudo no início e tivesse percebido o que eu realmente queria... Se, se, se... O passado não volta! Outrora eu aconselhei alguém a não se condicionar, a não pensar em como seria ou como deveria ser. Olha eu aqui, errando como ele... Mas assim são os seres humanos, complicados. E por ser assim, acho que não entendes uma só palavra do que eu aqui descrevi, mas nem sempre a gente precisa entender o que vem do coração, basta sentir, e eu sinto! Talvez entenda, se identifique com o que eu também sinto. Ou talvez não sinta... Devemos sempre contar com todas as possibilidades, não é mesmo? Eu ainda não sei que tipo de amor é o nosso, ou o “meu”, mas posso afirmar que te amo... De um jeito que só eu sei, só eu! Às vezes as músicas falam por mim, poucas falam exatamente o que eu gostaria de dizer. Uma delas, no entanto, me chamou a atenção por parecer ser escrita neste exato minuto em que transponho o que sinto em um papel, na hora em que a minha vontade era pegar o telefone e te ligar dizendo tudo o que não tenho coragem de falar cara a cara... E, quem sabe também ouvir o mesmo vindo do outro lado da linha... “Quis evitar teus olhos, mas não pude reagir, fico à vontade então. Acho que é bobagem a mania de fingir negando a intenção. E quando um certo alguém cruzou o teu caminho e te mudou a direção... Chego a ficar sem jeito mas não deixo de seguir a tua aparição! E quando um certo alguém desperta um sentimento é melhor não resistir e se entregar... Me dê a mão, vem ser a minha estrela, complicação tão fácil de entender, vamos dançar, luzir a madrugada, inspiração pra tudo o que eu viver... E quando um certo alguém desperta um sentimento é melhor não resistir e se entregar...”(Um certo alguém - Lulu Santos)
(...) Hoje a minha sorte disse: “Faça apenas o que o seu coração mandar”. Logo hoje, um dia tão distante de acontecer tudo o que está em minha mente; bem antes de eu viver tudo o que eu sonho apenas com você. A distância está exatamente entre o sonho e o que bem longe será realidade. O meu coração me manda pegar o telefone e te ligar... Mas a razão me impede. A razão me impede de tanta coisa... Mas o que mais vale, o principal impedimento da minha razão é o de te dizer o quanto eu te amo. Maldita sociedade, manipuladora e estúpida, que nos faz cegos, no molda exatamente para sermos o que nunca desejamos. Sociedade que pede honestidade em todas as situações, mas que na hora de abrir o seu coração, se esconde por trás das malditas aparências. Eu sei, esta pode ser uma maneira burra de demonstrar o que sinto pra você, escrevendo uma carta secreta que jamais lerá, mas esta sou eu, uma reles humana socialmente encaixada na tal sociedade, a qual julgo e condeno. (...) Este é o momento em que esperamos todas as nossas respostas. Um momento em que conheceremos os nossos verdadeiros sentimentos e emoções. Um momento de muitas perguntas e anseios por respostas imediatas. Mas é este agora, o qual eu partilho com você, que eu sei exatamente o porquê de todas as coisas. Porque os nossos caminhos se cruzaram desta maneira tão surpreendente, maneira cujo eu garanto nenhum de nós saberia o desfecho. É nesta ocasião que eu sei que te amo... Porque o amor é como o vento. Não podemos vê-lo, mas podemos senti-lo. Porque o amor é assim, tão inatingível, mas tão, ao mesmo tempo superável. E tão fácil... “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece. Não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal. O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá.” Porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era criança, pensava como criança; mas, logo que cheguei a ser adulta, acabei com as coisas de menina. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor. E, enfim, algum dia nós saberemos se o amor pode mover uma montanha. Algum dia nós saberemos, porque o céu é azul. Algum dia nós saberemos, o que era certo pra cada um. O amor não depende unicamente de nossa vontade, porque não é apenas escolha, é comprometimento, atitudes e comportamento de responsabilidade por quem nós amamos. Não vale dizer que depende do outro. Não vale essa desculpa. O viver no e do amor é nossa decisão... Uma decisão responsável. O que significa realização e promessa. Amor hoje e amor amanhã. Por que viver sem rumo, se isso é morrer aos poucos, pelo caminho, sem nada realizar de nosso destino, ou melhor, de nossa missão? Por que resistir ao tempo de construção, negligenciar o que nos cabe fazer? Por que apenas sobreviver, se podemos viver? Por que ignorar, furtar-se, omitir-se, quando temos potencial para amar? E o amor é como o vento... Não como a brisa leve... “E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.” Mas algum dia nós saberemos, porque Sansão amou Dalila. Um dia eu irei dançar na lua, algum dia você saberá quem realmente era único pra você. “Escrevo-te estas mal traçadas linhas,espero que desculpes os meus erros por favor, meu amor, meu amor”(...)
Te amo!

Carta a alguém especial

Carta a alguém especial


Nem lembrava como era me sentir assim... Parece que você renovou o meu “eu” e conseguiu me transformar em uma criança novamente, daquelas bem traquinas e que nunca sabem o que estão fazendo. Parece que eu descobri uma parte morta de mim, ou que nunca teve a chance de nascer; aquela parte ofuscada pela antecipação da minha maturidade, pela falta de vivência nua da minha adolescência. Só sei que não sou mais eu, e a cada segundo eu gosto muito mais de estar ao seu lado. Passam-se os dias, as horas, os segundos, e eu rezo, rezo para que quando você se sente ao meu lado, me abrace, como das outras centenas de vezes em que nossos corpos dividiram o mesmo espaço. Apaixonei-me pelo seu jeito de sorrir, desconcertado e lascivo, sorriso este que emites a cada conquista ou a cada despedida. Sei também que não quero me ver longe de você, que não quero dividir as minhas manhãs com outra pessoa. Descobri o que sinto, quando, ao te olhar, encontrei também o seu olhar, um olhar que eu procurei por anos e anos desperdiçados com a distância de não te conhecer. Não é nada demais gostar de alguém, não é nada demais. Não nos roubam a vida se não deixamos e não nos afrontam se não nos entregamos, mas nem sempre se entregar chega a ser algo ruim. Gostar, antes de amar, é sentir, unicamente, sempre. Acima de todas as coisas, mesmo que para isso tenhamos que renunciar. Não é nada demais... Sei o que sei porque a pouco descobri, quando fui obrigada a me desprender do meu passado para conquistar meu futuro. O que eu escuto por ai, de poucas pessoas por sinal, é que o nosso futuro está condicionado e que se não nos explicarmos um ao outro, se não formos sinceros diante do que está aos nossos olhos, sofreremos por algo não vivido. Talvez se não vivermos, sempre lembraremos do passado pensando em como seria se tivéssemos sido “nós”. É por isso que eu quero, hoje mais do que nunca. É por isso que eu te quero, tanto! Não sei mesmo porquê. Me meti em confusões, eu sei, senti tudo na hora errada. Não era pra ser assim, não agora. Se fosse de outro jeito... Se tivéssemos nos encontrado num cinema, num elevador, numa rua; se nos esbarrássemos e tivéssemos que pedir desculpas... Se eu não tivesse confundido tudo no início e tivesse percebido o que eu realmente queria... Se, se, se... O passado não volta! Outrora eu aconselhei alguém a não se condicionar, a não pensar em como seria ou como deveria ser. Olha eu aqui, errando como ele... Mas assim são os seres humanos, complicados. E por ser assim, acho que não entendes uma só palavra do que eu aqui descrevi, mas nem sempre a gente precisa entender o que vem do coração, basta sentir, e eu sinto! Talvez entenda, se identifique com o que eu também sinto. Ou talvez não sinta... Devemos sempre contar com todas as possibilidades, não é mesmo? Eu ainda não sei que tipo de amor é o nosso, ou o “meu”, mas posso afirmar que te amo... De um jeito que só eu sei, só eu! Às vezes as músicas falam por mim, poucas falam exatamente o que eu gostaria de dizer. Uma delas, no entanto, me chamou a atenção por parecer ser escrita neste exato minuto em que transponho o que sinto em um papel, na hora em que a minha vontade era pegar o telefone e te ligar dizendo tudo o que não tenho coragem de falar cara a cara... E, quem sabe também ouvir o mesmo vindo do outro lado da linha... “Quis evitar teus olhos, mas não pude reagir, fico à vontade então. Acho que é bobagem a mania de fingir negando a intenção. E quando um certo alguém cruzou o teu caminho e te mudou a direção... Chego a ficar sem jeito mas não deixo de seguir a tua aparição! E quando um certo alguém desperta um sentimento é melhor não resistir e se entregar... Me dê a mão, vem ser a minha estrela, complicação tão fácil de entender, vamos dançar, luzir a madrugada, inspiração pra tudo o que eu viver... E quando um certo alguém desperta um sentimento é melhor não resistir e se entregar...”(Um certo alguém - Lulu Santos)

O anel das dúvidas e memórias

O anel das dúvidas e memórias




Um dia, você coube no meu médio.
Um dia eu soube que tinhas as minhas exatas medidas.
Como se fosse feito pra me envolver,
como se eu não precisasse buscar outros olhares...

Hoje, cerras o meu fluxo, impede-me de caber-te dentro de mim.
Acho que agora a única medida que lhe cabe é a da porta da saída,
aquela mesma que atravessastes naquela noite e que, um dia, me forçou a engrossar os dedos sem nem perceber.

Agora o plástico já não é mais tão transparente,
o pó imundo dificulta olhar para a beleza de dentro (que já não existe),
as flores amarelas estão cada vez mais tortas e amareladas,
as azuis murcharam sem nem se moverem,
aquela cor brilhante dos cristais foi apagada pelo polvilho do tempo
e a tal euforia de colocar-te em mim passa quando vem a lucidez, mas, de uma maneira maluca, retorna ao som da sua voz, aquela que tapa a minha indigência...

Um dia você coube em mim,
hoje nem entra, nem sai,
nem aumenta as minhas palpitações...
Mas tenho medo de perder-te,
medo de me perder,
medo de ficar sozinha, inópia na minha penúria...
Tenho medo porque não gosto que as luzes do passado se apaguem e eu fique no escuro...
Gosto apenas de manter-me na claridade...

Uma pequena voz

Uma pequena voz

-Acorda! Pára de tentar ser algo que não és! Fugir nem sempre é a melhor saída. Na verdade, só se deve fugir quando não se tem saída. Espere por notícias boas, estacione o carro no acostamento e pense em como seria se você não tivesse pensado melhor. Sinta como é linda a vida, como é suave e lindo viver... Não se apresse em viver uma parte da vida que ainda não é o momento ideal. Eu sei, eu sei o que se passa na sua cabeça. “Esse discurso fajuto de livro de auto-ajuda só me irrita ainda mais.” Eu sei, parece clichê, ou melhor, é um clichê. Mas quem te disse que clichês não são capazes de salvar vidas? Salve-se do inferno que você criou para si mesmo. Escute a voz do seu coração! Ame-se ainda mais pela criatura renovada que se tornará ao se ver fora dessa situação. Os problemas particulares são criados por cada um. É um problema do indivíduo tentar solucionar seus próprios problemas criando novos enigmas. Saia logo dessa situação, sozinho. Se fortaleça e...
Espere... Não! !
-Incrível, não conheço um só ser humano que consiga ouvir a voz da sua própria consciência quando precisa de ajuda!

LAÍS

"Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã
Tudo o que não era ela se desvaneceu..." (...)

Sim, porque a minha vida tomou novas cores quando ela reapareceu...
Naquela manhã estranha de segunda-feira, esperava eu, sentada à carteira da escola, que o meu mundo fosse mudar novamente?
Quando o seu rosto sereno voltou-se para trás e me mirou por alguns segundos, com aquele sorriso escancarado de alegria e surpresa, poderia eu aguardar os anos seguintes da minha vida de maneira menos especial?
Mal sabia eu que aquela guria, que anos atrás, em prantos, despedia-se de mim através daquele maldito portão azul, iria ser uma das pessoas mais importantes da minha vida!
Porque eu pensei, por longos quatro anos, que nunca mais a encontraria novamente! O destino reservou a mais bela brincadeira!
E juntas novamente, mas não tão próximas ainda, não deixamos de nos olhar com afeto, carinho e amizade! Nunca deixamos de sentar nos bancos dos corredores para chorar uma no ombro da outra coisas boas ou... ruins que nos aconteciam! Porque nossas almas já se conheciam e o destino também colaborava...
Mas não é preciso estar 100% grudado em uma pessoa para saber que ela é sua amiga...
Ela esteve ali, sem precisar estar, porque eu sempre soube que poderia contar com ela!
Saímos juntas daquela "Escola" e fomos juntas para o mesmo "Colégio", ainda sem pretensões mais extensas de ser o que somos hoje. E crescemos juntas, em todos os sentidos!
E, ainda juntas, descobrimos que o mundo é cercado de pessoas ruins, mas nada nunca conseguiu nos abater!
E houve um ano em que tudo brilhou, mas nem todos os momentos foram flores...
Nesse ano, estávamos tão íntimas que já pertencíamos a um mesmo corpo, em corpos distintos! As almas já eram uma só há tanto tempo...
Foi nesse ano que houve tanta cumplicidade que até os anjos invejaram, mas uma inveja boa...
Ela me acolheu, me ensinou a ser bem melhor, a não sofrer tanto... Esteve do meu lado até quando não podia!
Ela se deixou mais leve para que eu não sentisse ... tanta dor!
Era capaz de tirar de si para que não me faltasse nada!
E hoje somos uma só... Hoje eu não sei ser eu mesma sem ela...
Ela é tão parte de mim que às vezes me confundo com ela...
E eu já sei o que ela vai pensar ou como vai agir, porque não preciso de mapa, mas pensamos ao mesmo tempo...
E ela me conhece tão bem... Nem eu mesma sei se me conheço tão bem assim!
Ela e eu, um só!
E se eu for pra ela metade do que ela é pra mim, estou feliz! E se eu fiz pra ela metade do que ela fez pra mim, estou feliz!
Mas se um dia houver dor ou desespero, quero-os inteiros para que não reste uma gota pra ela!
Porque se um dia a gente brigar tão feio, todas as palavras duras descem pelo ralo em um choro agudo e purificante...

"Porque era ela, porque era eu..."

Superstição

Superstição


Acordei ansioso, depois de um sonho estranho com o meu braço. Sonhei que este ficava em pedaços depois de pisoteado por uma manada de elefantes. “Que estranho!”, pensei. Uma manada de elefantes na minha casa! O sonho se resumia a isso, era apenas isso, uma infinidade elefantes andando e andando por cima do meu braço, a noite inteira, como se fossem os carneirinhos saltitantes quando tentamos dormir. O mais engraçado de tudo é que eu não me lembro de sentir dor. Levantei-me da cama como de costume, sempre pelo lado esquerdo. Sou contrário às superstições. Sou contrário a tudo o que é óbvio e efeito de modismos. Sim, porque houve uma época em que o esoterismo e as crendices estavam “em alta”. E houve uma época também em que Nostradamus previu o fim do mundo em 10 de agosto. Eu me pergunto até hoje como algumas pessoas caíram nessa balela. Por isso nem me abalei. Se tivesse contado à minha mulher, com certeza ela iria tirar milhões de interpretações, ou me mandaria para sua vidente particular. O que achei estranho foi a manada de elefantes na minha sala de estar! Enxagüei o rosto milhões de vezes. Elefantes, na minha sala? Sentei à mesa, tomei meu café preto enquanto lia o jornal de segunda-feira. Minha mulher esquentava o pão das crianças. Olhei-a por alguns instantes. Como é idiota essa mulher... Queria poder contar-lhe o que me vem à cabeça de vez em quando! A menina mais velha amassava a banana com granola e leite em pó, “para limpar a pele”, ela dizia! Isto logo depois de tomar dois copos de água, como ensinou a revista teen, que lhe servia de bíblia. Adolescentes são tão infantis, e as mulheres então, acham que os homens ligam para a sua ridícula vaidade! Ah, como são tolas! Saí de casa. Com o alívio de sempre. Enfim veria gente normal, como eu! Gente que não liga para esse tipo de besteira! Cheguei ao trabalho e, como de costume, deixei meu paletó no braço da poltrona cinza. Sentei na cadeira e suspirei. Ainda me perguntava o porquê de tantos elefantes, e na minha sala.
-Com licença, Sr. Cláudio, vim lhe trazer os relatórios que o senhor me pediu ontem.
-Jonas, você já sonhou com algo estranho? - perguntei-lhe antes que ele deixasse a sala.
-Claro que sim, senhor! Todo mundo uma vez na vida teve um sonho estranho! Isso é normal! Com o que o senhor sonhou?
-Com uma manada de elefantes dentro da minha casa... Pisoteando o meu braço!
-Xi, doutor Cláudio, dizem que quem sonha com braço quebrado, tem uma grande decepção!
-O que me aflige não é o braço, Jonas, e sim o fato de terem tantos elefantes na minha casa! E eu não acredito em interpretações de sonhos, obrigado! Agora pode ir!
-Sim senhor!
“Meu Deus, mais um imbecil no mundo!”, pensei. E durante aquele dia, mais e mais pessoas tentaram interpretar aquele maldito sonho. Pra completar a minha teoria, só saíram interpretações ruins. Como as pessoas buscam interpretar a vida da pior maneira... Resolvi deixar toda aquela asneira pra trás, afinal de contas, eu não acredito em nada disso! Quando deixei o serviço e entrei no carro, vi o zelador do prédio em que trabalho sentado num engradado de cerveja vazio.
-Boa noite, “seu” Cláudio!
-Boa noite, Antônio!
-O senhor quer que eu limpe seu pára-brisa? Tá todo sujo!
-Não precisa não, Antônio, eu já estou de saída! Até amanhã!
-Até, doutor!

Soneto aos que amam à distância

Soneto aos que amam à distância

Gentilmente acariciava tua face
Leve e doce como sempre esperado
Sentir teu corpo junto ao meu amado
E traçar-nos em único enlace.

E beijá-lo enfim profundamente
Sentir seu calor aquecendo o meu corpo
Porque só assim viverei bem de novo
E só assim serei feliz novamente

E revendo você de corpo inteiro
Sentirei sempre uma nova vontade
De Realizar esse amor tão forte

E amando-te assim muito e distante
Que muitas vezes confundo a verdade
Com inúmeros momentos constantes

QUANTO EU VALHO

Hoje alguém me fez lembrar quem eu sou. Hoje alguém me fez acordar e reencontrar os meus valores, muitos perdidos com o (o)correr da vida. Hoje eu consegui enxergar algo além de mim, algo que não fosse o ser pobre que sou agora e que nunca sonhei em ser. Hoje eu aprendi que cada um tem seu valor, para ser mais específica, seu “preço”. Pode ser dinheiro, pode ser comida, pode ser até mesmo a dignidade. Palavra forte, pesada. Muitos têm medo da intensidade de “dignidade”, embora muitos a vendam aleatoriamente. As pessoas têm medo de tudo, eu presumo. O medo é um fiel aliado. Somos seres fadados ao medo, sempre. Medo do escuro quando crianças, medo de bala perdida quando adultos. Medo do “bicho papão” ou medo de “bicho bandido”, “bicho homem” mesmo. Medo de amar e medo de morrer, sofrer... Temos medo de perder o que dizemos ser essencial à sobrevivência, mas não lembramos de ter medo de perder os valores, o que nos é ensinado por nossos pais, avós, tios, tias, parentes ou pelo mundo. Eu aprendi a não roubar e não matar. O meu vizinho aprendeu a tentar sobreviver e por isso ele rouba. Eu aprendi que 2+2=4. O meu vizinho aprendeu que juntando duas moedas de cinco centavos dava pra comprar um pão (antigamente). Hoje eu aprendi que “o mundo é do tamanho que a gente vê”, não quantificado pelo tamanho do que a gente compra. O mundo é do tamanho que intentamos, sonhamos. Por isso temos tantas opiniões distintas, por isso somos pessoas tão diferentes. E é por isso, também, que crescemos e mudamos, ou permanecemos como sempre fomos. Mudar é sempre bom, mas nem sempre todos adquirem essa capacidade. Mudar é difícil. Mas quem muda tem também uma conquista penosa pelo caminho: a conquista da sua identidade. Por isso é tão importante transformar-se, viajar, conhecer novas culturas, novos mundos. Porque só assim a gente vai saber como a gente é diante de amplas e diversificadas situações. Diante do meu espelho, hoje eu soube identificar quem eu sou. Só hoje eu pude ver que nada do que eu cristalizei como invariável não está nem cristalizado e nem, tampouco, invariável. Hoje alguém me fez reconhecer-me diante de tudo o que eu acreditava, para desacreditar em tudo. Para acreditar no dia de hoje, não no dia de amanhã. Porque o que a gente pode mudar em nós mesmos só pode ser agora. Amanhã, ninguém sabe... Hoje alguém me fez lembrar quem eu sou. Hoje eu acordei pro meu verdadeiro mundo.

Precisa-se de profissionais

Precisa-se de profissionais

Não, este artigo não deveria estar na página dos classificados. Sua intenção também não é alertar sobre o desemprego ou o subemprego, assuntos tão corriqueiros na vida de todos os brasileiros. Nem apontar mais divergências sociais existentes em nosso país. O que será discutido de fato é a necessidade de verdadeiros profissionais no ambiente de trabalho.
Competência está em falta no mercado. Ética e competência. Acho que atualmente não ligamos mais para isso. Sem querer entrar profundamente nos aspectos da problemática social, desde sempre somos “educados” para ser incompetentes. São os nossos exemplos, ou melhor, a falta deles.
Crescemos e aprendemos com os erros a errar mais. Aprendemos a faltar aula por qualquer motivo, depois a faltar ao emprego, a “furar” a fila do banco, ocultar quando o cobrador erra o cálculo do troco, e outros inúmeros pequenos exemplos, que de pequenos tornam-se enormes.
Este é o futuro do professor mal pago, do assassino de aluguel e do juiz “lalau”. É o futuro de toda uma nação mal educada para a sociedade e para a vida. Este é o futuro de “profissionais” insatisfeitos que, para se vingar da má sorte, descontam o que podem na sociedade que os fez assim, formando mais uma geração de novos “profissionais” a seu espelho. É como olhar o passado e ver tudo refletido no presente.
Mas isso não é tudo. O que dizer dos políticos corruptos, dos juízes corruptos, dos advogados corruptos? Nossa, quanta corrupção junta! É a velha história do rico ficando milionário e o pobre miserável.
Uma gama de trabalhadores “satisfeitos” dando péssimos exemplos. Seja o político do “mensalão”, seja a advogada que acolhe o fugitivo em sua casa, (que grande ironia), sejam até mesmo os nossos jornalistas, que moldam a nossa opinião de acordo com suas ideologias, quando deveriam ser pouco parciais naquilo que fazem, "descritores da informação", como diz um amigo meu.
Esse jogo de falta de ética, respeito e principalmente dignidade no trabalho, forma a base para o que somos hoje. Profissionais sem amor ao seu trabalho, sem integridade para com a sua vida profissional; uma sociedade puramente capitalista, em que o dinheiro está acima dos sentimentos. Hoje somos desqualificados, desinteressados, falhos, alienados. Esse desinteresse pelas coisas simples e até as mais complexas da vida, ilustra uma juventude completamente acomodada. Uma juventude proveniente de outra totalmente diferente, cheia de lutas e conquistas históricas.
Quem não se lembra dos “caras pintadas”, que enfrentaram uma realidade semelhante à atual e conseguiram depor um dos grandes corruptos da história do Brasil? Ou, quem sabe, outros jovens anteriores a estes, que lutaram e conseguiram pôr fim à ditadura, muitos deles torturados, exilados ou mortos?
A história nos mostra que o passado conquistou “tudo” para o presente e os jovens de agora, com tudo nas mãos, parecem não querer mais nada. Não anseiam por nada. E assim tornam-se os profissionais do presente e do futuro. Que profissionais! As aspirações aos sonhos acabaram. E é assim que a ética e a competência se constroem.
Precisa-se urgentemente de profissionais, no sentido bruto da palavra, alguém que possa exercer uma atividade por ofício e não apenas por dinheiro, por prazer e não apenas por dinheiro, por amor e não apenas por dinheiro. Porque se for pelo dinheiro, ninguém precisaria cursar em média quatro a cinco anos de uma faculdade para fazer teoricamente aquilo que gosta, bastaria que as faculdades ensinassem a como ganhar dinheiro.


(Selecionado para o concurso: Jornalistas do Futuro - 2006 - Categoria: Artigo)

PORTAL DO FUTURO

Mais uma vez o fim


Agora vá... Não quero nem uma lágrima a partir de agora, nem um arrependimento pode pintar no teu rosto, afinal, foi você que quis assim! Eu não posso intervir de nenhuma maneira, nem se eu mesma quisesse, não teria como, é hora de você seguir sozinho! Vá de uma vez! Quero que só tenha boas lembranças de mim, do que nós vivemos. Quero que se lembre dos nossos sorrisos, das nossas aventuras, até das nossas brigas, infinitas, mas que nos ajudaram a dar este importante passo! O passado é passado, não volta mais nem um segundo, muito embora pensemos em consertar os nossos erros e voltar atrás nas nossas ações. Eu não sei de você, mas o que sinto neste momento é um pouco de alívio misturado com aflição, afinal de contas a partir daqui é e será para sempre cada um por si! Eu também não sei se vem à sua cabeça alguma dúvida, mas a dúvida do porque chegar até aqui! Poderia ter sido tudo tão mais fácil, não acha? Era só prever como seriam as nossas vidas se tivéssemos pensado na hora de agir, se tivéssemos agido mais com a razão pensando no coração. Sabe, às vezes eu ainda penso em como tudo começou, na maneira como nos olhávamos, nos tocávamos e como toda a nossa intimidade cresceu, pouco a pouco, na maneira como nos tornamos o que fomos nesses últimos quinze anos, no nosso amor encravado, sempre entalado por alguma razão inexplicável. Mas eu ainda acho que poderia dar certo... Talvez se a gente não tivesse se cobrado demais naquele dia, ou se eu saísse de vez por aquela porta, se não tivéssemos nos chutado e nos amado tanto e tão intensamente! É, acho que pensamos no inicio quando chegamos ao fim! Talvez eu ainda te ame, mas sinceramente eu não sei! Depois de tanto amor e de tanta emoção eu já não sei mais o que é o amor! Nem sei se algum dia mais eu poderei amar alguém como amei você... Eu sei, esse é o maior dos clichês, mas eu não consigo pensar em outra coisa que descreva tão fielmente a mais pura verdade! Agora é pra valer, vá! Não olhe pra trás a não ser para rever os nossos erros, como um manual, como um guia, ou então para lembrar com saudade dos bons momentos! Sim, porque saudade é bom, é sempre bom, mas lembre-se, o que passou, passou, não há mais como voltar atrás! E pense em tudo o que eu lhe falei. Eu não sei se é bom continuarmos a nos ver, pelo menos por enquanto, até porque ainda não reaprendemos a ser apenas amigos! Éramos amigos que se beijavam, e agora temos ainda que aprender a não mais nos beijar! Agora temos que aprender a conviver sem o corpo do outro, e essa é a tarefa mais árdua. Temos que aprender a sermos dois, quando fomos um só! Mas vá, e nunca se esqueça que o que passou, passou, não volta mais!

O DESCONHECIDO

O DESCONHECIDO

Era pequeno, frágil e inofensivo. Estava parado, bem diante dos meus olhos. Ele chamou a minha atenção. Em meio ao cinza das ruas, debaixo de um sol rachante, em pleno dia de semana. Eu não sabia o que era aquilo, não fazia idéia. Por alguns segundos, mirei-o atenta e curiosa. Aquele ser miúdo e verde em meu pára brisa. Os prédios agora passavam despercebidos pelos meus olhos. Tudo passava despercebido, a loucura do movimento, das ruas, dos relógios. Por instantes, viajei no pensamento, fui parar longe daquela doidice da rotina.
O sinal fechou. Dois meninos faziam malabarismo em frente ao carro, pareciam cansados, o sol estava realmente forte. Pus a mão no bolso e tirei quatro moedas, duas de cinqüenta e duas de dez centavos. Instintivamente, catei as moedas de dez e entreguei-as nas mãos do mais velho. “Para os dois”, disse. Olhei minha mãe sentada ao meu lado e pensei em como aquela boa mulher já tinha se acostumado com aquele tipo de cena cotidiana.
O sinal abriu, saímos dali. Enquanto os carros zarpavam em seus trajetos mecânicos, eu pensava em como seria possível não se indignar com o que tínhamos acabado de ver. Às vezes, converso comigo mesma, ainda que não consiga encontrar respostas. Às vezes, converso com Deus e imagino que ele responde, mas muitas vezes não consigo captar as respostas “Dele”.
Parei de pensar em besteiras e me deparei olhando novamente para aquele ser minúsculo preso no limpador de pára-brisa do carro. Era verde, tinha as patas tão pequeninas... É, realmente eu nunca tinha visto um animal daqueles.
-Mãe, que bichinho é esse preso aqui no pára-brisa?
-Ah, filha, esse bichinho, no interior, as pessoas chamam de Esperança.

No silêncio de mais um traído(r)

No silêncio de mais um traído(r)

O que esperar de um desgosto interminável?
O que esperar se nada mais se espera?
O poeta surpreende-se a cada dia
Pelos anseios sofridos de uma equação sem resposta.

Julgaram as verdades de uma fatal expectativa
E agora, estendem a mais valorosa fonte de amor,
Sem pensar que nem sempre as coisas são o que aparentam ser.
O que na verdade é real, funde-se a mais inútil e descrente fantasia.

Viver nesse mundo? Ser desleal aos seus valores?
Ser infiel à fidelidade e ser fraco à mentira?
É enxergar, é viver, é amar!
Que paradoxal encontro de “razões”!

A verdade de mais um sentimento foi traída,
Mais uma vez aquele que acreditavas ser,
Foi assassinado cruelmente pela realidade do mundo!
Seus instintos mais felizes o contrariam a cada segundo!

A vergonha daquilo que fomos capazes de fazer,
E que fazemos inúmeras vezes na busca da satisfação,
Ou simplesmente por ganância, ou por diversão,
Nada mais feliz nas resoluções do que andar em busca da felicidade!

O nojo de se olhar no espelho, logo após mais um beijo traiçoeiro,
O asco de se ver caluniador na tua verdade,
O horror de ser honesto nas mais sinceras mentiras,
O repúdio de estar aqui!

Mais uma vez trair e ser sujo,
Mais uma vez, sem resposta, saltar o muro da insensatez,
Pular a história de mais um “nós dois”,
Ter a certeza de iludir mais um “final feliz”!

E agora? Trair a si mesmo ou ao mundo?
Viver esquecido ou sofrer sem sentir?
Morrer de angústia ou calar os sentidos em mais um despido e frio “estar”?
Sentir a ilusão de mais um “alguém” ou acordar da sua própria ilusão?
Fingir o “não sentir” ou não sentir?

Calo mais um pérfido jogo de palavras em mais uma incerteza,
Mais uma forma de saber que nada e nem ninguém sabe o que pensa saber!

Niilismo 1

Niilismo


Eu sou aquele que vaga pelas noites frias
Atrás de um sentimento qualquer, mesmo que seja a dor.
(Eu nem sinto nada!).
Sou só um vazio, um órgão material, morto.
Algo que a qualquer momento pode quebrar.
Só encontro ausência!
Por que ninguém se livra dos seus sentimentos, pelo menos os maléficos?!
Ai então sobraria qualquer angústia ou aflição, e quem sabe medo?
Sou apenas um desprezo de Deus,
Aquela indiferença contaminada que ninguém faz questão de ter!
Eu quero ser, eu quero ter, quero existir.
Mesmo sabendo que a vida é apenas uma comunidade de sentimentos aglomerados
Que não fazem o menor sentido juntos.
Eu sou aquele asco,
Que nem mesmo a putrefação do corpo corrupto aceitou dentro de si.
Eu sou o nada,
Aquele vazio que você nunca sente.
Eu sou nada apenas,
Sem mistificação.