quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Emblemas da razão humana

Antes de qualquer coisa gostaria de sobrepor alguns tópicos para compreensão deste trabalho. Esta é uma análise, não um estudo, do ser humano. Digo que não é estudo porque não é limitante, como os trabalhos deste caráter. Não me limito a estudos individualizados sobre o homem e/ou a mulher, sob puras vertentes psicológica, biológica ou sob “teorismos” baratos de machismos ou feminismos. Prefiro falar sobre a realidade, já que o sufixo “ismo” sugere um comportamento orientado por determinados princípios, nem sempre verídicos, ou seja, a junção de atividades em torno de uma tendência, de um movimento. A realidade é o estado real, se me permitem a redundância, e é nisso que irei me focar.
Nem é preciso ressaltar a diferença física entre o homem e a mulher. Todos aprendemos que só é possível haver reprodução humana pela relação sexual entre ambos. Biologicamente, isto é explicado pela diferença cromossômica, ou seja, o homem possui dois tipos de cromossomos, o X e o Y, enquanto a mulher só tem um tipo, o X em dose dupla, que origina características diferentes entre eles e possibilita a produção de mecanismos complementares na fecundação de outro ser. Porém, o que algumas pessoas não sabem é que isto é resultado de uma mutação, quer dizer, na realidade era para que todo o ser humano fosse mulher. Concordo que esta mudança tenha sido benéfica, mas gera algumas polêmicas.
Estudos científicos comprovam que esta “deficiência” no cromossomo Y masculino ocorreu por uma deleção, ou seja, a perda de um trecho de nucleotídeos, na língua específica, falta de genes. Isto determinou uma série de outras mutações que originaram as características masculinas, como o desenvolvimento de um aparelho reprodutor diferente, que, consequentemente, determinaram hábitos e costumes diferentes, necessidades e desejos distintos. Isto é resultado, também, da evolução das espécies, já que as necessidades para sobreviver dependiam da divisão de tarefas: o homem era o caçador e protetor da família, enquanto a mulher era a zelosa cuidadora da cria. Isto determinou, também, o condicionamento físico e comportamental ao longo dos anos e, por isso, por exemplo, o desenvolvimento de uma visão mais periférica à mulher, o que determina uma qualidade para melhor observação de detalhes e um senso de direção mais aguçado nos homens (isto, é claro, genericamente.).
Ao longo dos anos, este desempenho configurou a organização das sociedades, o surgimento do “patriarcalismo” dos séculos passados, sob a justificativa de superioridade intelectual masculina. Na realidade, não significava uma dominação da inteligência masculina e sim uma busca inconsciente pela praticidade, já que a mulher era quem cuidava dos filhos, era quem, pelos hormônios, possuía mais sensibilidade, devido à necessidade do instinto maternal.
O que se descobriu, com o passar dos anos, foi a existência de, não uma, mas várias inteligências humanas. E é neste ponto que a mulher sai ganhando (que me perdoem os homens, mas é necessário enfrentar a realidade.). A mulher se desenvolve e amadurece mais rapidamente, justamente pela ação hormonal condicionada pela necessidade fisiológica de procriar. Enquanto os homens buscavam reafirmação social, estas buscavam a sua afirmação real, lutavam para se inserir na sociedade, o que traria futuramente mais dinâmica, elegância e inteligência à atualidade (claro, a pluralidade e a diversidade de idéias são mais interessantes).
A mulher, com sua sensibilidade, traz mais humanidade, mais tranqüilidade para as relações, antes em fervorosa pelo excesso de brutalidade masculina (excesso de testosterona!). O que carece aos homens em inteligência afetiva, suponho eu, (ironicamente, sem base científica) é pela falta de genes que as mutações cromossômicas trouxeram. O homem tenta compensar essa carência com auto-afirmação exagerada, com a demonstração de excessos, como a busca por grandes músculos ou em concursos nos banheiros públicos pelo maior pênis (mal sabem eles que pênis muito grande, para a maioria das mulheres, causa incômodo. Não com tamanho que se acha o ponto “G”, garotos, é com desempenho!). Parece até que a “perninha” que faltou ao se “Y” nasceu extraviada nos “países baixos” e que é lá que eles devem mostrar a sua inteligência.
É também necessário desmistificar outro fato. Não é a mulher que é fissurada por beleza e sim o homem. Sim, porque as mulheres intentam ficar bonitas para se relacionarem, tanto com outras mulheres quanto com homens, seja na busca por um amor ou relacionamentos em geral. Revela, porém, que a mulher, por ser mais sensível, é muito carente.
Quando analisamos o ritual da “paquera”, por exemplo, podemos ver com mais clareza. Homens se arrumam, se embelezam, mas, não tanto quanto as mulheres. Se um homem fora dos padrões de beleza da atualidade se interessa por uma mulher “bonita”, é muito mais fácil estes se relacionarem do que se uma mulher fora dos padrões se interessar por um homem “bonito”, já que este, geralmente, irá buscar alguma mulher que sirva ao seu ego, tanto para si quanto para expor aos outros. Isto revela a divergência de interesses entre homens e mulheres. Enquanto a mulher busca atenção, maturidade, estabilidade, carinho, o homem busca a beleza. O interessante é perceber a diferença de notoriedade que estes modelos de casal fomentam. Se for um homem bonito e uma mulher feia: “nossa, ele merecia ‘coisa’ melhor”; se for uma mulher bonita com um homem feio: “ele deve ser muito bom em alguma coisa!”.
A mulher tem inteligências subjetivas, enquanto o homem tem inteligências objetivas. Por isso que o pensamento da mulher é mais abrangente, pois o subjetivo consegue enquadrar o objetivo, enquanto a recíproca não é verdadeira. São os homens, contudo, que determinam o sexo (em todos os aspectos, literalmente.).
Existem mulheres de todos os tipos. Mulheres que vivem em função de agradar os homens e se esquecem de suas inteligências, mulheres que vivem em função de si mesmas e usam os homens a este favor, (que, por sinal, morrem de medo de caírem sob esta condição, mas que, se caem, adoram, quando estão longe dos amigos); e existem as mulheres que gostam de outras mulheres, algumas porque se cansaram de ser maltratadas e buscam um pouco mais de sensibilidade, outras porque buscam relacionamentos mais interessantes, pelo menos no âmbito da maturidade.
Por isso é a mulher que rouba a cena por onde passa, por isso que é ela o alvo de todos os olhares, seja de homens desejosos ou outras mulheres invejosas, apesar dos homens acharem que o mundo gira em torno dos seus umbigos. Por isso, também, que muitos gays são alvo de preconceitos, por serem únicos em conseguir aflorar inteligências múltiplas e subjetivas, são temidos e notoriamente mais inteligentes, pois conseguem assimilar os dois lados.
Não podemos, no entanto, ignorar as exceções. Não quero estabelecer um padrão de que a orientação sexual é que determina a inteligência, pelo contrário. Apenas exploro a idéia de que homens e mulheres que se portam voluntariamente diante dos moldes do padrão, seguem, portanto, um mesmo ou semelhante comportamento e isto se deve, em parte, pela construção social em que eles se inserem. Há homens que desenvolvem ambas as inteligências independente da sexualidade, assim como há mulheres que desenvolvem seu lado objetivo em detrimento do subjetivo, mas, em geral, são pessoas que costumam viver isoladamente, ou na companhia do sexo oposto, já que este lhe é o comportamento semelhante, ou, ainda, de outras pessoas (poucas, já que contraria o arquétipo) que também se interessem pelos mesmos desígnios. O objetivo desta análise não é defender um dos dois lados. O objetivo é mostrar que os homens dependem das mulheres e vice-versa, são apenas seres humanos sem distinção, pois não há raça que não a HUMANA.

Notícia: nada é notícia.

Não adianta se indignar por “poucas” coisas, nem vale a pena achar um absurdo os recortes da realidade. Assustamo-nos quando um homem morde um cachorro quando, na verdade, isso nunca acontece, é o cachorro quem morde o homem todos os dias. Conformemo-nos, açoitemos o conceito de democracia, afinal de contas é utópico, fruto da mente da sociedade, como todos os outros. A novidade da notícia e seu caráter de arrebatamento falecem. A denúncia e a investigação também. Isto porque a corrupção já faz parte de nosso cotidiano, não é mais surpresa, não traz espanto algum. O homem anda tão apático que não tem mais coragem de morder o cachorro, é mordido, sucumbe a ele todos os míseros cotidianos dias de sua existência banal.
Cristalizações dos preconceitos fazem com que o normal, como esquecer a chave de casa e forçar a entrada na porta seja algo criminoso, racial. Um homem, por maior que seja a instrução, é ditado fora de regra, marginal, apenas pela aparência que apresenta. E isso não é notícia, não é motivo de indignação, porque faz parte dos sentimentos, pensamentos e ações do homem, não traz nada que seja novo. E tudo acaba em uma cervejinha, para esfriar os ânimos (no Brasil, acaba em pizza mesmo!).
Não adianta se indignar. Façamos como minha querida avó, pensemos porque a neta de Sarney expôs o avô pelo celular para pedir emprego ao namorado: “Por que essa menina não falou com o avô pessoalmente?”.

O rei do mundo

Por Elisa Bastos Araujo
6 de agosto de 2009.


É algo realmente inédito encontrarmos um negro, de nome muçulmano na presidência dos Estados Unidos, considerando toda a história do país. Inteligente, sólido, contundente, consciente, ele é um cara preparado, disposto, capaz. Mas ele não é Deus, não pode mudar sozinho e completamente o rumo de todo o mundo. Pelo contrário, é um homem, com todas as suas limitações, angústias, questionamentos, indecisões, amabilidades e a falta delas. Ou seja, não consegue sobreviver sozinho, isolado. E, afinal, é norte-americano.
Então, porque esperar que ele não erre, que não cometa equívocos, que não assuma a postura típica dos norte-americanos quando necessário (afinal, é isso que esperam dele)? É sonho demais, já que ele não é aculturado, não pretende viver nem governar fora da realidade e dos tradicionalismos estadunidenses. É utopia achar que ele pense no resto do mundo em primeiro lugar. Nós, captadores de seus costumes, ou do lixo deles, acabamos absorvendo tanto a sua cultura que sorvemos, também, suas esperanças e expectativas. Ele pode, sim, mudar uma realidade, mas não toda ela.
Tenho a impressão de que os norte-americanos vivem ainda no tempo pré-Copérnico, mas que, ao invés de crerem na Terra como centro do universo, crêem nos Estados Unidos da América como o centro da Terra. Justificam a interferência, mesmo que contrariada, em outros países, pregam o tom civilizatório e opressor da época da colonização (claro, que em proporções tecnológicas e enquadradas ao nosso século XXI), julgam-se mais evoluídos, civilizados, não selvagens, embora convencionais até o talo às aparências, mesmo que a subvertam. Because: “Yes, we can!”. Os donos do mundo acabaram nos impondo a crença de que Deus existe, e o nome dele é Barack Obama (afinal, você não acha que tudo isso não seja nada além de um golpe de marketing, para os grandes inventores desta expressão?).
Não duvido, em nenhuma hipótese, que ele seja uma pessoa engajada. O que duvido é que ele queira romper com as diferenças, que fazem o seu país “superior” e que fazem dele o homem mais poderoso diante do planeta. Duvido que ele não pretenda jogar com as expectativas para consolidar sua política de forma confiável, retomar a fidúcia do resto do mundo, abalada pelas ações do monstruoso George W. Bush. O que me assusta é a maneira como ele é utopicamente venerado, algo que, mais tarde, pode trazer a ele problemas de identidade que o conduzam à terapia.
Não creio, também, que o simples fato inédito da sua eleição traga imediatamente a benevolência, o respeito e a tolerância aos povos não norte-americanos, inferiores, minorias, ou seja, somente o resto do mundo. Eles não deixarão de pensar em nós como selvagens, sexuais (e não sensuais), inferiores culturalmente (devido ao sol intenso que recebemos na cabeça nas terras abaixo da linha do equador), só porque um negro é seu governante maior. Eles não deixarão de pensar em nós como os visinhos indesejados, tão diferente e distante deles, não separados territorialmente, mas com uma linha grossa, extensa, imaginária, mas bem real. E não deixarão de pensar em si mesmos como os provedores da sabedoria, da cultura e do que melhor se pode propagar ao resto do mundo. Por isso a xenofobia, a homofobia e tantas outras “ias”, talvez por tentativa de se reafirmarem como poderosos.
Apenas um preconceito foi rompido, e olhe lá, pois isso não significa que ele se dissolveu. Muitos ainda trazem em si a idéia de que todos os muçulmanos são terroristas, suicidas, loucos; que os europeus são fedidos, atrasados, porcos; que os latinos são de outro continente, índios, pendurados em cipós como o Tarzan, nus no samba, no tango ou cantando “la cucaracha” o dia inteiro (além de acharem que a capital de todos os países sul americanos é Buenos Aires). E o que dizer, então, do que acham dos africanos? Presos em tribos, mortos de fome, miseráveis, indigentes.
Não há como descrever a infinidade de conceitos que eles nos descrevem, a falta de vontade de se interessar por algo que não seja o seu umbigo. É possível que se defina o seu conhecimento como a Nova Idade Média, ou, melhor ainda, a Era das Trevas à luz cega da tecnologia. Deduzem tanto que somos sexuais, que vendemos o corpo por qualquer trocado, que nem percebem os seus problemas sexuais, as suas perversões ocultadas (ou tentando ser) pelo puritanismo. Somos apenas menos puritanos, não nos escondemos tanto por trás de tabus. As adolescentes grávidas, as mulheres que tanto desejam ser atrizes no exterior, que acabam, inocentemente ou não, tendo que vender o corpo, são o resultado de uma educação carente, não necessariamente de uma cultura pró-sexo (embora a banalização da bunda, da coxa e do “creu” seja tão evidente). A única diferença se dá pelo padrão da necessidade. Quer dizer, o trabalho pesado, nenhum mauricinho que vive o “sonho americano” quer fazer, mesmo que precise, enquanto um de nós o agarraria com unhas e dentes. É, que grandes provedores de conhecimento nós temos, que sorte a nossa, não?
Na verdade, a visão respeitosa perante as outras culturas está convergindo aos Estados Unidos neste momento, embora eles passem a impressão de que, como bons cidadãos, o respeito surge com a conversão do mundo à sua ideologia. A entrada de mais um presidente do seu país traz apenas perspectiva de mudança política. Se ele conseguir dissolver todos os preconceitos cristalizados em seu povo puritano de fachada, aí sim, direi “Ele é o cara”, pode-se considerá-lo Deus. Enquanto isso, nos limitemos a sonhar com este dia, como povos selvagens que somos, curtindo o nosso carnaval, com as nossas mulatas dançando dia e noite a nossa miséria intelectual.