A ociosidade é um vício infiel, que desmorona qualquer sonho obstinado. Os vícios se modificam sob a ótica ociosa. Por exemplo, a necessidade incessante e doentiamente viciada por leitura transforma-se facilmente em cochilos depois do almoço. A saudade do amigo distante vira uma eterna esperança por uma ligação inesperada que não parta de você, e que, logicamente, não te faça levantar das cochiladas intermediárias. O ócio é o inimigo da existência. A existência torna-se meramente vegetativa, puro objeto fisiológico para o qual todos estamos destinados: nascer, crescer, dormir, morrer. E nada mais. Mas existe tamanha beleza no ócio, principalmente aqueles gerados por uma tarde de domingo acompanhada de programas fúteis e imprestáveis na televisão. Aí o ócio, por muitos, é negado e facilmente se intitula cansaço, mas um cansaço acometido de uma enormessíssima impotência física e mental. A velha desculpa para o espaço vazio no pensamento, a idéia de que se pensa bastante durante toda a semana e que este é o único horário do dia (e da vida) que se tem a necessidade quase que fisiológica de não pensar. Ou seja, rir (e ficar apático) por besteiras do circo eletrônico. A ociosidade é, sem dúvida, uma companhia constante no pensamento das pessoas, pois ao longo do dia (e da vida) pensamos única e exclusivamente no fim do dia, chegar em casa, tirar os sapatos, tomar um belo banho (em alguns casos) e tirar a velha soneca intermediária. Já existe, inclusive, uma filosofia de vida que prega a necessidade fisiológica de pelo menos uma vez por dia reservar um horário para fazer nada (o que contradiz a idéia, pois o próprio conceito de fazer nada dispensa o fazer no ato de reservar um horário para nada fazer). Acho contraditória, também, a concepção social de maturidade. Você entra na escola desde muito cedo para se preparar para um futuro profissional que, no ato do exercício, só te fará pensar em não fazer nada. É, não tem jeito, o ócio é um vício cruel que, de tão impregnado, já se tornou parte da vida de qualquer cidadão humano (baiano ou não).
Elisa Bastos Araujo
Terça-feira, 17 de agosto de 2010
12:35
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