Primeiro do que eu vou falar, depois o que eu falo sobre isso:
DO QUE EU VOU FALAR
Jean Wyllys: Não gosto do ‘bom’ gosto
21.01.2011 | 09:31 Publicado no "jornal" Correio da Bahia
É só começar uma nova edição do Big Brother Brasil para que aquele coro formado por “intelectuais” de mesa de bar e pelo baixo clero universitário comece a entoar sua cantilena repetitiva e entediante contra o programa, seja na mesa do bar propriamente dita, seja em segundos cadernos e sites que se ocupam do entretenimento televisivo.
Os membros desse coro não só demonizam o BBB - com o argumento de que este “idiotiza as massas” porque não tem “conteúdo” - como fazem questão de se mostrar incríveis e orgulhosos de si por não assistirem ao programa; costumam se sentir seres humanos melhores por consumirem “bons livros” e “belas artes”. O coro não só constrói hierarquias de gosto e de consumo cultural como as trata como algo “natural”.
Não, elas não são naturais, da ordem da natureza. Da ordem da natureza é imobilidade das pedras, pois mesmo a cor dos olhos das pessoas não são mais naturais desde que se inventou a lente de contato colorida. Hierarquias de gosto e de consumo cultural são construídas pelos homens; são um dado da cultura. Logo, quem está por cima ou no poder vai definir seu consumo cultural como legítimo ou de “bom gosto”, estigmatizando, segundo seus critérios, o consumo de quem está por baixo como “inferior”, de “mau gosto”.
E não se trata de uma mera distinção cultural apenas. Trata-se, antes, de justificar privilégios sociais e econômicos nesse mundo capitalista: “É justo que só eu e os meus possamos viajar para Nova York, pois só nós sabemos apreciar as belas artes do Museu de Arte Moderna; somos, portanto, seres humanos melhores que aqueles que se perdem na programação televisiva”. Quem está por cima e demoniza o consumo cultural dos pobres esquece ou finge se esquecer de que uma viagem a NY para visitar o Museu de Arte Moderna custa caro!
Esse argumento de quem está por cima é, na verdade, um ardil, pois essa gente sabe que no dia em que o consumo cultural for realmente democratizado, no dia em que o povão tiver acesso aos bens de consumo das elites, acaba-se a distinção cultural e a hierarquia entre as pessoas. Essa gentalha que se acha inteligente por desprezar publicamente o consumo das massas é, portanto, ardilosa e hipócrita (quer dizer, algumas reproduzem essa mentalidade até sem se dar conta, porque nunca pararam para se questionar).
E olha que estou me referindo apenas àqueles que realmente consomem belas letras, belas artes, belas músicas, e não àqueles que fingem consumir, perdendo o tempo em mesas de bar criticando a tevê e a cultura de massa. Com os filósofos franceses Michel Foucault e Michel de Certeau, aprendi que há resistências para toda disciplina (ou tentativa de sujeição ou produção de “corpos dóceis”). Todo consumo ou toda leitura ou toda recepção é feito num contexto, a partir de uma história de vida. Por isso, significados ou sentidos são produzidos mesmo nesse momento da recepção, por mais que os emissores das mensagens pretendam controlar os significados e, assim, manipular os receptores.
Durante muito tempo, os intelectuais desprezaram essas resistências, esses desvios produzidos pelos subalternos. Durante muito tempo os “iluminados” se outorgaram o papel de definir o que é melhor para a “massa ignara”. Durante muito tempo, esses “iluminados” desprezaram as soluções e arranjos elaborados pelas massas para lidar com a falta e a opressão cotidianos. Os “iluminados” nunca pararam para pensar que “se milhões de pessoas trocam um comício por um último capítulo de novela, isso não pode ser considerado um mero equívoco”, como disse outro filósofo francês, Jean Baudrillard. Os “iluminados” nunca repararam que os diferentes grupos que constituem as audiências podem se politizar a partir do consumo de programas televisivos.
E só recentemente, no Brasil, pesquisas de recepção derrubaram o discurso dos inimigos da telenovela, que afirmavam que a mesma era um “ópio” que “despolitizava” e “idiotizava” as massas. Pesquisas deixaram claro como os sentidos que as massas podem produzir a partir da telenovela podem ser mais relevantes politicamente do que imaginam os “iluminados” - os mesmos que, hoje, trocaram de objeto e “demonizam” o BBB.
A edição de que participei teve um impacto político-cultural sem precedentes no imaginário popular; e não sou só eu que o digo: no último senso feito pelo IBGE em que apareceu um aumento no nível de tolerância à homossexualidade no Brasil, a principal explicação dos consultados para essa tolerância foi a minha presença/performance/discurso no reality show.
O QUE FALO SOBRE:
Não gosto do mau uso do bom gosto
Outro dia resolvi exercitar minhas atividades que necessitam ser rotineiras, como boa jornalista que almejo ser, e li um jornal classe B, de nome não necessariamente mencionado neste artigo (para não dar azar a minha carreira até então promissora, nem que seja apenas pelo desejo de que assim seja.). Descobri um artigo do nosso tão desejado vencedor do BBB5, Jean Willis (ah, me desculpe, WYLLYS), atual deputado federal pelo estado do Rio de janeiro. Nele, Jean demonstrava toda a sua indignação pelos intelectuais de bosta, ou algo do tipo como o próprio ousou classificar, que depreciavam o programa global, alegando que este não tinha conteúdo. Jean, no auge de sua ignorância mascarada pelo capuz de professor universi(o)tário, disse que estes intelectuais de bosta, que costumam dizer que o programa não tem conteúdo, esquecem-se que ele é um exemplo para os brasileiros que, a partir dele, passam a ultrapassar tabus e preconceitos. Ele apresentou dados estatísticos que confirmaram, em tese, sua tese de que os brasileiros, tendo como base a edição em que saiu vitorioso, passaram a ser mais tolerantes aos homossexuais. Bem, dados podem comprovar a redução, mas não afirmam a extinção. Que o diga o jovem que foi atacado por outros jovens que, provavelmente ouviram falar do gay assumido no BBB5. Mesmo que de tudo se extraia algo proveitoso, acho que pode até ser que o BBB seja exemplo, mas de mediocridade, de como a premissa da aplicação da teoria hipodérmica ainda vigora até os dias de hoje (ou pelo menos os detentores de algum tipo de poder, os donos dos meios de comunicação de massa ainda tentam fazer vigorar). Adorno, por sinal, deve ter se contorcido de raiva ao ouvir tal explicação. Quer dizer que se eu colocar gays na casa do BBB todos os gays do lado de fora serão respeitados? Ou ainda, em menor proporção de exageros, que o simples fato de sua presença no programa faz com que os mesmos jovens "neonazistas" que atacaram o rapaz com lâmpadas fluorescentes vão repensar suas atitudes e dizer a si mesmos: “olha só, tem um gay no BBB, vou deixar de atacar os gay no meio da rua por causa disso.”. Acho muito improvável. O que eu vejo ser mais do que provável é a espetacularização da vida humana, a maneira ridícula a que se reduzem homens e mulheres com telencéfalo desenvolvido e polegar opositor a fazerem tambor de bunda. Todo este circo, alega Jean, faz bem para a população brasileira que não tem acesso à livros de Stanislávski para saber o que é encenação de verdade. Isso é cultura porque o que os intelectuais de bosta, ainda citando o nosso querido milionário, chamam de “cultura mesmo” é inacessível. “Nem todos os brasileiros têm dinheiro para ir ao Louvre em Paris.”. Resta a eles contentarem-se com as almejantes a Monalisas de meia tigela? Sim, porque o programa se resume hoje à bunda, mulher bonita, vulgar, garotas de programa, conversas escrachadas sobre sexo sem camisinha com tudo e todos, baboseiras sem utilidade. Não é porque o Louvre fica em Paris e a passagem até lá é para poucos que os que restam sem este privilégio podem seguir vendo a manutenção do estereótipo de futilidade da mulher brasileira. Há uma grande contribuição do BBB e é esta: a manutenção da bunda. Não é pra menos que os gringos quando vêm aqui querem chafurdar nas fartas bundas de qualquer mulata brasileira. É só o que tem aqui, não é mesmo? Não é só o que passa na televisão? Dançarinas se proliferam enfeitando os palcos dominicais e destas muitas ainda sonham em virar filme e vender milhões de livros com a história de sua vida, quem sabe virar exemplo de como espremer o veneno do escorpião vale mais a pena do que qualquer tempo perdido em uma sala de aula para ser futuramente mais uma profissional assalariada ou, quem sabe, uma dona de casa enterrada atrás do fogão. Esse é o grande exemplo do BBB: ganha dinheiro quem posa nua e faz o teste do sofá. Afinal, não é só pra isso que a vida serve, ganhar dinheiro para ter conforto e segurança, para poder ir à academia todos os dias e manter o corpinho, o ganha-pão, sempre em forma? É para isso que o BBB serve, manter estereótipos mascarando-se na ruptura dos mesmos. Afinal de contas o mais interessante é que o povo fique burro, sem conhecer Nietzcshe, Proust ou qualquer outro filósofo que pense em libertá-los da manipulação. Os intelectuais de bosta só vêem isso mais claramente, afinal de contas, eles leram estes filósofos. Quanto a você, Jean, é muito conveniente defender quem te premiou com uma bolada que fez de você um homem notado, não notório, milionário e deputado, mesmo que tenha clareza, expressão de resquícios de estereótipo iluminista, para discernir tudo isso. BBB não é pesquisa antropológica, afinal, acontece sempre o mesmo, ou melhor, há uma aproximação delicada, como que sob uma lupa, da mediocridade da espécie humana.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
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